domingo, 5 de dezembro de 2010

Aniversário

Neste dia, há exatos dois anos, recebi uma mensagem no celular:
“Parabéns! Que Deus ilumine essa cabeça fantástica com tanta criatividade. Amo você demais. Beijos.”
Vinha da Márcia e estava endereçada ao “Meu Flávio” que é como o meu celular estava identificado no dela..
Cinco meses e meio depois veio o acidente e a sua partida. Depois veio outro celular que me foi dado pelo Fábio e a mensagem recebida se perdeu.
Há poucos dias, mexendo no celular que lhe pertencia, encontrei os votos na pasta das mensagens enviadas. Já havia feito créditos no telefone dela para não perder a linha na vã esperança de receber outras mensagens ou ligações, crença que o tempo vai desvanecendo.
Fazendo o balanço desse período fica a impressão de que também a criatividade se dissipou. Quase mais nada de gravuras ou pinturas saiu da tal cabeça fantástica como se a partida dela as tivesse levado consigo. Como se a cabeça ou a criatividade somente existissem com a presença dela ou o apoio e incentivo que dava. Sobraram uns poucos escritos nos quais exibo as tripas e as vísceras despudoradamente. Mesmo dos escritos, andam ausentes os contos e as poesias. Devo ter desaprendido. Isso me faz pensar que além da casa, das roupas e das comidas era ela quem cuidava da minha cabeça. Provavelmente, da mesma forma que era ela quem ordenava minha mesa de trabalho, a tranqüilidade e o estímulo que me dava ordenavam meus pensamentos.
Tenho dito e escrito que o casamento é convivência. É o dia a dia. É o esfregar dos corpos e dos espíritos a moldar as diferenças e as coincidências. A ausência dessas fricções, incluindo os atritos, não deixa criar relações duradouras. Como nas ausentes gravuras. A falta de incisões e de lixas não produz matrizes. E apenas as matrizes originam frutos.
Continuo aguardando que a oração, pedido ou voto feito por ela, ainda que exagerado, seja atendido. Ainda que não fantástica ou criativa, seja ao menos iluminada.

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

Para Célia, André e Feto

Há cerca de dois meses um casal ficou grávido. Por uma daquelas coincidências da vida, há cerca de dois meses mais quarenta e quatro anos nascia uma menina que viria a ser a caçula de uma família cujo pai e mãe eram os meus. O filho mais velho, dos três moleques, cometeu um arremedo de poesia que falava da data do nascimento, quinze de setembro de sessenta e seis, e dos desejos de que a recém nascida fosse feliz.
Acho que a menina é feliz e está em vias de ter o mais desejado e mais feliz período da sua vida, em que pesem os enjôos e o peso adicional que terá de carregar pelos próximos quase sete meses.
Lembro-me de fazer dormir a tal menina, fazendo-lhe cafunés nos cabelos loiros e de pedir-lhe os mesmos cafunés recostando minha cabeça no seu colo pequeno. Fazê-la dormir rapidamente me fez acreditar que eu era um mago de criancinhas. Acreditei que as podia fazer parar de chorar e que as fazia sorrir quando adormeciam. Exercitei os mesmos poderes quando nasceram os meus três, hoje, marmanjos.
Ainda não se sabe o sexo da criança. Três filhos meus, três filhas do meu irmão do meio e dois filhos e duas filhas do mais novo, empate portanto, não permitem prognósticos quanto ao futuro rebento. O que espero e desejo ardentemente é que tanto a mãe quanto a criança transponham esse período com a mais absoluta saúde física e mental. Que eu ainda tenha suficiente saúde física e mental para fazê-la dormir sorrindo, por tantas vezes quantas fiz com a mãe. Talvez já não tenha capacidade para fazer poesias. Talvez já tenha suficiente discernimento para não cometer outra poesia.
No sábado, quando recebi a notícia e depois, pensei no quanto estariam felizes meus irmãos, meu pai, minha mãe e a Márcia se ainda estivessem aqui. Pensei na felicidade que sentiria a Márcia ao saber da novidade da mais do que cunhada, quase irmã, e no que sentiria minha mãe, lá no próximo mês de junho, com quase oitenta e sete anos, tendo nos braços a filha ou o filho, décimo primeiro neto, de sua única menina. Pensei no rosto de falso carrancudo de meu pai com os olhos marejados de lágrimas abençoando o pequeno ou pequena dizendo “Benza-te Deus”.
Pensei no coral de todos nós, presentes e ausentes, dizendo “Assim Seja, Amém”.

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

Impotência

Não sei porque razões resolvo me meter na vida dos outros, quando não consigo cuidar sequer da minha. Pode ser coisa da idade, às vésperas de ficar ainda mais avançada, como se as idades não avançassem todos os minutos de todos os dias e esperassem um único dia do ano para saltar mais um degrau.
Não deve ser isso já que me intrometo há muitos e muitos anos tentando dizer para as pessoas coisas que não consigo dizer aos meus próprios ouvidos. Quem sabe seja mesmo a maldição da Deise, como já escrevi aqui há algum tempo, me rogando uma tristeza que não queria ter. Quem sabe seja a vontade de fazer mais felizes as pessoas que me cercam na tentativa de me apropriar de parte dessa felicidade. Quem sabe seja uma vocação inerente para enxerido. Coisa tipo faça o que eu digo e não o que eu faço.
De concreto, neste final de semana, uma outra menina, que eu não consigo esconder que adoro, voltou a derramar rios de lágrimas, que atingiram meus olhos, ao contar do fim ou interrupção de um romance. De novo espero que mais do que férias de uma relação que apenas engatinhava, se trate de um final de semana prolongado no qual cada um viaja para local distante. De novo espero que as farpas atiradas dissipem-se rapidamente e o amor de ambos reencontre os melhores dias como se encontravam ainda há pouco.
Novamente volto a desejar que as tolices ou bobagens ditas ou cometidas percam completamente a importância afim de que apenas o carinho que sentiam, um pelo outro, prevaleça.
Não sei se é orgulho ou intolerância. Se é falta de companheirismo ou solidariedade ou se é egoísmo. O que gostaria mesmo é que se tratasse apenas de uma pequena rachadura, daquelas que ocorrem em quase todas as casas até que o solo e as paredes se acomodem.
O que me faria feliz era não sentir esta impotência para resolver problemas, meus e dos outros. Era poder, num passe de mágica, transformar as lágrimas da minha moleca em sorrisos, a distância em presença, a tristeza em felicidade, o abandono em companhia. Criar barreiras para impedir que, mesmo por segundos, o amargor substituísse sua doçura. Poder fazer que a meiguice estampada no seu rosto ficasse ali tatuada para sempre e que os seus olhos só pudessem ficar vermelhos em razão da água salgada dos banhos de mar.

terça-feira, 23 de novembro de 2010

Amor e carne de porco.

Recebi ligação de uma menina. Chorava tanto do outro lado da linha que imaginei inundar meu celular. Descobrira que o marido a estava traindo, não uma ou duas vezes. Tiveram um início de discussão e ele apanhou suas coisas e saiu de casa deixando a mulher e o filho, com menos de um ano.
Ao que pude notar, suas lágrimas resolveram acompanhar o rapaz e estão saindo todas, um dia sim e o outro também, como se lhes estivesse faltando o espaço naqueles olhos novos.
Por mais que se tente compreender e consolar, e ela garantiu que se sentia melhor conversando comigo, não há como não ficar pensando no que acontece com as relações entre as pessoas.
Dois jovens se conhecem, se enamoram, passam a viver junto (o casamento tradicional parece ter saído de moda definitivamente), engravidam, colocam uma criança no mundo e, logo depois se separam, cabendo à mãe dar conta do pequeno.
Antigamente as comidas eram consumidas observando-se seu estado geral. Colocavam-se sementes (arroz, feijão, milho, etc) numa grande lata, retirava-se o ar do interior (geralmente com fogo) e vedava-se a tampa. Matavam-se porcos e as carnes eram guardadas em outras grandes latas cobertas e envoltas com a gordura derretida do próprio animal. Para que fossem consumidos, retiravam-se as porções necessárias, examinavam-se os alimentos e lacravam-se as latas novamente. Dava trabalho, gastava-se tempo, mas armazenados adequadamente duravam bastante tempo. Hoje se olha o carimbo do fabricante ou empacotador. Vencido ou próxima a data do vencimento, joga-se tudo fora. O mercado da esquina provê outros. Tudo muito cômodo.
Parece-me que as ligações humanas têm datas de vencimento, determinadas e carimbadas sei lá por quem. Não há nenhuma preocupação para evitar o caruncho ou o ranço. Não se faz esforço nenhum para que a lata ou as relações deixem de apodrecer. Não se colocam mais as sementes ao sol para evitar o bolor. Não se olha mais o estado das latas ou dos conteúdos. Não se faz manutenção preventiva.
A impressão que fica é que as relações eram mais bem cuidadas. Se alguma coisa não ia bem, conversava-se e se tentava descartar apenas o que estava errado ou estragado. Dava-se tempo ao tempo para se manter o que havia de bom no relacionamento. Se faziam acertos, se aparavam as arestas, para que o conjunto continuasse funcionando bem.
Hoje, diante da fartura de alimentos e de potenciais relações, rejeita-se todo o pacote. Com o pão amanhecido faziam-se torradas que eram saboreadas com patê. Agora o pão de ontem é jogado fora e vai-se em busca do pão fresco. Vivemos na era dos descartáveis, incluindo nós mesmos.

A ilógica lógica do Capitalismo

Zé Renato, meu irmão de andanças e caminhadas pela vida, perdeu o emprego. Nada de anormal nisso. Todo mundo perde o emprego, mais cedo ou mais tarde. Faz parte da lógica comercial. Faz parte do âmago do capitalismo. Troco você por alguém mais barato ou extingo a função quando meu lucro dá uma caída. Se meu passeio à Europa, ou a compra do meu automóvel novo, ou a aquisição de meu duplex na praia fica levemente ameaçada, demito alguém. Depois contrato um dedicado no lugar de dois que mandei embora. Que se danem as famílias dos demitidos. Que comam menos ou baixem os padrões, o que não pode baixar é o meu padrão e o dos meus familiares. Deixar meu Lulu sem veterinário, nem pensar.
Algumas pessoas entram no jogo sem se dar conta das regras. Patrão é patrão, empregado é empregado. Alguns sacrificam sua vida pessoal e sua felicidade em troca dos bons cargos e salários e se apropriam da pretensa importância dos cargos, como conquista pessoal inalienável. Bobagem. Todos somos substituíveis na ciranda do capital. Não importa o quanto de sua vida você deu. Quantas madrugadas perdeu ou o quanto deixou de acompanhar de perto sua família. Quando você menos esperar, vai chegar a hora da guilhotina e o frio do aço vai correr sua espinha quando a lâmina descer.
O irônico nisso tudo é que o amigo lidava com desempregados. Uma empresa internacional que enche as burras cuidando do desemprego de gente graúda de multinacionais. Aqueles que ajudaram o patrão a impor a ordem capitalista, para não passar à oposição são acariciados logo após o pé na bunda, durante algum tempo para que consigam nova colocação. Recebem o salário e/ou alguns benefícios durante mais algum tempo para que não percam a ilusão de que ter patrão é bom. Com os carinhos recebidos ficam mais propensos a portar os chicotes numa eventual nova empresa. Meu irmão cuidava de não deixar esmorecer a confiança do demitido em sua própria capacidade e a ajudá-lo a transpor as barreiras que se apresentassem.
Por ironia ou escárnio, foi demitido sem aviso e sem que a empresa lhe oferecesse o mesmo tipo de tratamento que dispensava aos outros. Por ironia do destino ou por escárnio, acabara de perder a mãe e de financiar um apartamento.
Otimista por escolha e convicção, dará a volta por cima. Por deferência e apreço o destino deu-lhe fé inquebrantável no ser humano e o apoio do ombro companheiro da Rosana. Com esses alicerces, com certeza levantará edifício muito mais sólido do que aquele onde lhe sugavam o sangue. Fraternais votos de que o Universo conspire a favor.

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

Prá ver - engano

Cometi um equívoco quando falei da exposição IMAGENS IMPRESSAS.
A mostra vai até o próximo dia 28 de novembro de terça a sexta, das 10h às 21h30 e aos sábados, domingos e feriados das 10h às 18h30 no SESC Santos que fica na Rua Conselheiro Ribas, 136 - Santos / SP. Ainda há tempo para ver.

terça-feira, 16 de novembro de 2010

Sobre saudade e solidão

A amiga Márcia, mestra em artes, me corrige quando digo que estou solitário dizendo que o mais adequado seria dizer saudoso.
Analisando os escritos e anexos que me enviou a respeito da postagem aqui sobre a pizza solitária, vou carinhosamente discordar dela.
Saudade é diferente de solidão, apesar de serem ambas substantivos femininos, começarem com a mesma letra e terem o mesmo número delas. Nos dicionários a primeira é a lembrança nostálgica e, ao mesmo tempo, suave, de pessoa ou coisa distante ou extinta e a segunda o estado de quem se acha ou vive só. Fantástico o dicionarista, fantástica a nossa língua. Nostálgica e suave a saudade. De quem vive ou se acha só, a solidão. Eu acrescentaria que a solidão pode ser também nostálgica, mas quase nunca é suave.
Só se sente saudade de pessoas ou coisas, ações inclusive, que se acham distantes ou extintas e é perfeitamente possível viver-se só mesmo rodeado de coisas e pessoas.
Aqui, à beira das estradas é comum encontrarem-se pessoas caminhando pelos acostamentos em direção do nada, do mais pra frente. São os andantes ou andarilhos que carregam os pertences às costas, como os caracóis ou tem o mundo como pertence, como os pássaros. Apesar dos milhares de veículos e pessoas que passam, estão inapelavelmente sós. Talvez carreguem dentro de si saudades de outros tempos e coisas e pessoas que buscam encontrar ali, no logo adiante, no depois da próxima curva. É provável que a busca nunca termine. Vivem das frutas dos acostamentos e das esmolas, dos banhos das chuvas ou das bicas e caminham. A maioria fala sozinha, que talvez seja a melhor forma de ser escutado
Outros, aparentemente mais felizes, andam com um cachorro. São facilmente distinguíveis. O cachorro é, quase sempre, o mais bem cuidado e alimentado da dupla. Estranhamente, nem o homem e nem o cachorro se aproximam dos outros pelo caminho. Parece que se bastam, homem e cão, a si mesmos. Podem sentir saudades de coisas, pessoas ou situações, mas definitivamente não parecem solitários.
Em mim, que não tenho a paciência dos caracóis, a liberdade dos pássaros e não me afeiçôo tanto assim aos cães, convivem saudade e solidão, algumas vezes isoladas, algumas vezes como irmãs siamesas, quase sempre de modo doloroso. Na postagem, recordar-se das marcas na fôrma, tem a justa medida da saudade, dos tempos de família reunida. Comer o alimento sozinho, quase todos os dias, tem a aparência, o cheiro e o sabor de estar e se sentir só. A exata e correta mensuração da solidão.

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

Finados

Estranho comemorar as perdas num único dia do ano. Estranho marcar data para a tristeza. Quem tem perdas recentes para trazer à memória não precisa de datas especiais. Todos os dias são dias de lembranças. Quem não tem ausências para lamentar, não precisa do dia. Aproveita o feriado para ir à praia, para ir ao campo, para colocar as leituras em dia. Portanto, tanto para quem as tem, quanto para quem não as sofre, o dia é prescindível.
Qualquer dia, qualquer hora é momento de lembranças. Lembrança não precisa de anotações na folhinha. Mais do que substantivo feminino ou do que o ato de recordar é um ser independente. Aparece quando quer, não pede permissão. Feito posseiro, invade sem pedir autorização. Inexplicavelmente provoca sorrisos e lágrimas. Lembrança é bicho traiçoeiro, ataca sem permitir defesa prévia.
Dia de finados deve ser invenção do capitalismo mais selvagem. Não falo do comércio de flores e velas que deve sofrer um incrível incremento nesse dia, até porque, não me consta, existirem transnacionais poderosas que monopolizem o comércio de coroas de flores ou maços de velas. Pelo menos por enquanto.
Falo do capitalismo selvagem a varejo, todas as empresas, as pequenas, as médias e as grandes. Devem ter feito lobby para que fosse estabelecido o dia. Quer sofrer ou chorar por qualquer perda? Faça-o no dia dois de novembro. Punto e basta! (também me afetam os bordões criados pela televisão).
Não fosse assim, cada um teria o direito de ter os seus próprios feriados. Não vou trabalhar hoje porque estou com saudades. Vou lamentar e sofrer até me secarem as lágrimas. Quando der, volto. Fica à vontade, querido, diria, compreensivo, o dono ou gerente da loja ou do banco, se ele próprio não tivesse as suas mágoas para purgar.
Se não é invenção patronal, é comodidade pessoal.
Não sofrer e nem chorar nos aniversários das datas em que finaram ou terminaram vidas, sentimentos ou esperanças. Guardar tudo para um único dia do ano. Aí, cada qual no seu canto, como eu no meu, anteontem, sofre e lamenta-se à exaustão. Depois, no primeiro minuto do dia seguinte já é permitido tirar o luto. Dobram-se bem os trajes, coloca-se uma ou duas bolinhas de naftalina, para evitar as baratas, e vamos à vida.
Infelizmente aqui os relógios não marcam adequadamente as horas e os dias e a minha memória não me dá tréguas.

terça-feira, 2 de novembro de 2010

Mergulho



A ave voa mergulhada num céu azul escuro como quem esquadrinha a superfície de um oceano de profundo azul.
Sabia que assim, rente ao mar, podia voar por mais tempo desgastando-se menos. Vez ou outra, com a ponta do bico ou dos pés, riscava a superfície provocando uma fina linha de espuma e borbulhas. Comprazia-se com o vôo.
Os mais desavisados julgavam-na pronta para capturar alimento. Um olhar mais demorado, entretanto, mostrava que amava a liberdade proporcionada pelo voar. Submersa no azul do céu capturava liberdade. Mais do que se importar com as ondas mansas ou revoltas, importava-se com o vento. Subia por cima das poucas nuvens e mergulhava com a máxima velocidade até que, numa fração de segundo, mudava o rumo e planava sobre a superfície da água.
Aprendeu que podia voar mais alto e ver mais longe. Aprendeu que o mergulho mais profundo a levava até os peixes mais saborosos. O bico, a cabeça, as asas, todo o corpo transformado em flecha. Aprendeu que não precisava viver alimentando-se dos restos atirados pelos barcos de pesca. A maioria imaginava que a vida era apanhar cabeças de peixes atiradas pelos marujos dos barcos e não competir com eles à procura do melhor. A maioria voava todo o dia para receber as migalhas.
Contrariando as leis das gaivotas, descobriu que podia voar no escuro. Viu que depois das trevas nascia um novo dia. Aprendeu, dolorosamente, que um galho aparentemente calcinado volta a brotar. Renascer. Depois do negro da noite, pela manhã voltavam as cores.
Depois, quando sobrevier a fome, mergulha novamente com o mesmo prazer, desta vez para não desviar no último milésimo de segundo. Desta vez para entrar na água o mais fundo que puder e capturar o melhor dos melhores peixes que avistar. Este, desavisado
e sentindo-se seguro diante da ausência, ao redor, de predadores marítimos, nem se dá conta do breve instante que separa a vida da morte, o hoje do amanhã.
- Bonito o seu mergulho! Disseram-lhe o sorriso e os olhos negros, a um só tempo ingênuos e provocantes, que se insinuavam na jovem de corpo dourado de sol ou de genética.
A gaivota vivida de outros vôos, como um Fernão Capelo Gaivota (de Richard Bach), a contemplou afastando-se num andar de quase onda marulhando para um lado e outro. Que magníficos vôos e peixes esconderia aquele mar dourado como que banhado pelo por do sol?

quinta-feira, 28 de outubro de 2010

Marcas na fôrma de pizza

Houve uma época em que fazíamos pizzas em casa. Eu preparava a massa e a Márcia cuidava das coberturas. A molecada adorava pizzas e era muito agradável ver o povo ao redor da mesa onde a massa era espancada. Pra não ficar no costumeiro e no tradicional, eu inventava. Quase sempre iam folhas de orégano seco misturado à farinha e aos demais ingredientes. Lembro-me de uma vez em que misturei uma farofa de amendoim salgado e minha cunhada Eliane estava aqui. Por gosto ou por boa vontade gostaram. Na vida como no amor, além dos costumes, vez ou outra é preciso inventar. Dar novo sabor às coisas.
Quando podia tomávamos um vinho português para homenagear meu pai. Bons tempos.
Para facilitar os cortes dos pedaços, resolvi marcar as fôrmas com um alicate. Um dente a cada setenta e dois graus. Cinco pedaços exatamente iguais. Normalmente fazíamos duas ou três pizzas, o que nos satisfazia. As fôrmas caseiras não são tão grandes quanto as comerciais. Mais gente, mais pizzas. Se alguma coisa sobrasse ia para o café da manhã. Quem nunca se esbaldou com pedaço frio no dia seguinte?
Depois a molecada foi saindo de casa para estudar, trabalhar e casar e as fornadas foram diminuindo. Quando era o caso íamos a uma pizzaria. Nada como antes.
Estes dias comi uma novamente. A massa comprei no supermercado. Esparramei molho de tomate pronto sobre ela e larguei umas fatias de mussarela e umas rodelas de cebola e de paio. Comi sozinho com um copo de vinho lusitano. Quando lavei a fôrma encontrei as cinco marcas que ainda lá estão.
Talvez fosse o caso de jogá-la fora. Comprar uma outra e fazer marca nenhuma.
Solidão deve ser isso. Comer uma pizza sozinho.

Prá ver - "Espaços Diversos" II

Os espaços onde vão estar as obras são:
- Banco Santander;
- Bar do Brega;
- Café Alecrim Dourado;
- Café Suco & Cia
- Cantina Delirius;
- EEPSG Armando Gonçalves;
- Lanchonete Oásis;
- Lanchonete Primos;
- Rodoviária Municipal.
Os artistas que estarão expondo são:
- Apollo;
- Deco;
- Elisa;
- Flávio;
- Luzia;
- Margarida;
- Matsuda;
- Paulo;
- Rafael;
- Rene;
- Rosemeire;
- Shirlei.
Valem as visitas aos locais.

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

Prá ver - "Espaços Diversos"

Começa amanhã, 28 de outubro, e vai até o dia 04 de novembro, a 9ª Exposição de Artes Plásticas de Miracatu que este ano recebeu o nome "Espaços Diversos".
A organização ficou a cargo de Edison Feitosa, Genésio Martins e Nestor Rocha. Buscaram eles, este ano, diversificar os locais onde ficarão expostas as obras para que a população pudesse ter maior e mais facilitado acesso a elas. Banco, bares, lanchonetes e rodoviária receberão as obras de várias técnicas e dimensões. Minhas, estarão na mostra, dez gravuras.
De antemão o agradecimento pela iniciativa, pelo convite e pelo duro trabalho do trio que com certeza abre espaço na tão acanhada cena cultural da cidade.

Prá ver

Só mais hoje e amanhã para ver a exposição IMAGENS IMPRESSAS, no SESC Santos/SP da Rua Conselheiro Ribas, 136. Gravuras minhas e dos colegas do Grupo de Gravura Mariana Quito estão lá expostas desde o dia oito. Vale ir dar uma olhada.

sábado, 23 de outubro de 2010

Pressentimento

Não me esqueci nem do nome dela, Deise.
Eu um menino, ela uma moça linda.
Mais ainda meiga, objeto da minha cobiça de moleque.
Dos longos olhares arrastados e pegajosos dos meus olhos.
Da minha rua, a São José do Tremembé da Cantareira,
Que depois ganhou nome menos importante que o do santo.
A casa dela no meio da rua, a minha lá em cima, a última.
Os olhos dela eram caminho obrigatório para minhas idas e vindas.
Lá embaixo, quase esquina com outra, que depois ganhou nome de turco.
Eu parado esperando o caminhar mais lento de meu irmão mais novo.
A aproximação dela com a irmã casada.
Meus olhos se desenrolando na direção dos dela.
Na passagem a mão dela no meu rosto, que pensei nunca mais lavar.
“Que olhar triste você tem” disse a meiga voz.
Eu, imobilizado, como presa dominada,
Admirando-a até que, flutuando, sumiu na esquina.
Mal sabia eu que, mais que uma frase solta,
Aos meus ouvidos uma quase declaração de amor,
Era um vaticínio.
Se me visse hoje, aqui ou na mesma São José,
Por certo diria, sucinta, “Continua tendo”.
Não pode ter sido. Daqueles olhos, daquela mão,
Daquela voz não sairia uma maldição.
Certamente eram e devem ser outros os motivos.

sexta-feira, 22 de outubro de 2010

Das perdas

Confesso!
Não sei lidar com as perdas.
Não temporizo. Não delongo.
Sofro logo, de imediato, sofro depois e mais além.
Tranco-me em mim mesmo. No amplo da casa.
Fecho-me na minúscula amplitude do mundo.
Busco explicações. Não transijo. Questiono.
E nenhuma resposta me vem, me acorre, me ocorre.
Em minha cara e em minha alma a agonia transparece.
Encontro nas canções, em quase todas, os versos e as falas
Que me identificam assim como rótulos.
Como fichas técnicas das angustias que carrego.
Não condescendo,
Não deixo pra amanhã a lágrima que posso derramar hoje.

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

Cara de meio ambiente

Hoje acordei com a cara do dia. Com o jeito do meio ambiente. Todo nublado, sem sol, sem o calor das manhãs. Acordei chocho, como o dia.
Bom era ser pássaro. Não estar nem aí. Esperar o nascer ou renascer da manhã e voar. Bater as asas ou planar. Esvoaçar. Por prazer ou por necessidade. Desta nuvem àquela, revoar. Pra buscar alimento, água, uma pousada que não aquela da noite. Saber que apesar de não visível o sol está presente. Abrir as asas para espantar o frio da madrugada. Deixar as penas sentirem a claridade do dia.
Bom talvez fosse voar. Procurar fruta madura. Sentir cores, cheiros e sabores. Independentemente do horário de verão. Simplesmente voar, olhar as coisas do alto. Pousar e voltar a voar. Comer, beber, tomar banho em poça de água. Espargir-se na areia. Cantar. Dar uma cagadela, acerte a cabeça de quem acertar.
Bom era voar como pássaro.
Bom era ser contente. Aproveitar a manhã, esta mesma manhã. Chocha ou não, uma manhã. Viver integralmente esta, como foi a de ontem. Como será a de amanhã.

domingo, 17 de outubro de 2010

CHUVAS DE VERÃO

PODEMOS SER AMIGOS SIMPLESMENTE, disse-me ela, como se a amizade fosse algo “simplesmente”.
A amizade pressupõe dedicação, entrega, carinho, respeito, tanto quanto o amor ou o romance. Necessitam de opiniões divergentes, concordâncias, discussão. Nenhum dos dois sobrevive sem questionamentos. A submissão constante à opinião do outro é coisa para fieis e santos. Questionar existe desde quando o criador inventa a criatura. Não existe o paraíso para ambos. Vale para os deuses, vale para os artistas. A obra questiona permanentemente o autor. Porque seria diferente para simples seres humanos que buscam o melhor relacionamento? Porque seria diferente para o amor e para a amizade?
Ambos exigem cumplicidade. Ambos exigem conivência e muito trabalho. Nada é tão pouco “simplesmente” quanto a amizade e o amor. Se inexistentes num, o serão, com certeza, na outra.
COISAS DO AMOR NUNCA MAIS, ficou assim como que implícito aos meus olhos que percorriam mais uma vez suas pernas.
AMORES DO PASSADO E DO PRESENTE REPETEM VELHOS TEMAS TÃO BANAIS. Coisas passageiras ou não tão. Coisas tão próprias do amor e da amizade. Temas tão velhos quanto a existência do mundo.
RESSENTIMENTOS PASSAM COMO O VENTO, SÃO COISAS DE MOMENTO, SÃO CHUVAS DE VERÃO. São passageiros os desencontros, assim como as tempestades. O sol do próximo amanhecer seca os caminhos e nossos pés não se sujam mais com a lama de ontem à noite. As lágrimas não formam poças e muito mais rápido do que estas, acabam secando e dando lugar ao riso. Passam como o tempo. Basta dar a ele o que lhe é intrínseco. Dar tempo ao tempo.
TRAZER UMA AFLIÇÃO DENTRO DO PEITO É DAR VIDA A UM DEFEITO QUE SE EXTINGUE COM A RAZÃO. Nem amor e nem amizade dão vida, ou importância, a defeitos. Convivem com eles e os superam. A aflição se vai com o próximo sorriso, com o próximo carinho. Aflição e defeitos existem para serem superados. Algumas vezes não se removem todas as pedras do caminho mas estas acabam sendo contornadas e passam a fazer parte e a embelezar a paisagem.
ESTRANHA NO MEU PEITO, ESTRANHA NA MINHA ALMA, AGORA EU TENHO CALMA. Ficar em paz consigo mesmo faz parte do depois. Depois das chuvas e trovoadas. Depois do vendaval que açoitou o bambuzal. Depois da cheia que fez vazar o rio. Depois da tempestade, melhorou o tempo. Depois os pássaros continuaram voando seguindo as nuvens brancas numa direção e noutra. Depois virá o desassossego. Não fosse assim e não seria calma, seria rotina.
NÃO TE DESEJO MAIS é como se me dissesse o corpo tantas vezes acariciado quando o contemplei uma última vez. Não é o que disse o meu, mas por via das dúvidas acrescentaria ao mais o assim.
PODEMOS SER AMIGOS SIMPLESMENTE, AMIGOS, SIMPLESMENTE, NADA MAIS. O Caetano continuou cantarolando no rádio do carro a música do Fernando Lobo que foi feita pouco antes de eu nascer. Eta mundo velho sem porteira pensei eu ao avistar ao longe a silhueta escura dos montes e serras contra o azul escuro daquela noite. Montanhas e elevações que sempre estiveram ali e que vão continuar depois de mim e depois que todas as rádios deixem de tocar a música. Mesmo nesse tempo continuarão existindo o amor, a amizade e as chuvas de verão.

sábado, 16 de outubro de 2010

O amor e o churrasco

Nada mais primitivo que o amor e o churrasco.
Ainda que elas apareçam vez ou outra, não são as labaredas que devem prevalecer. Um e outro só existem quando acompanhados do calor das brasas.
Pode ser que precisem de uma chama inicial para dar início ao processo, mas o fogo contínuo e direto queimaria as carnes e extinguiria rapidamente o combustível.
No churrasco, normalmente utilizo um maço de ervas com salsinha, manjericão e outras que tenha à mão para “benzer” as carnes quando o fogo se levanta. A água, com um pouco de sal, acaba respingando sobre o carvão e as chamas voltam a ficar sob controle. Não se pode “benzer” demais sob pena de apagar o fogo nem de menos para não carbonizar o assado.
Também no amor o que se deve buscar é manter a brasa acesa. Quando a labareda se levanta cada qual busca o maço e o líquido para manter tudo na devida temperatura. É por isso, talvez, que após o sexo os corpos dêem uma relaxada tal qual a verificada, após a benzeção, nas churrascadas.
Da mesma forma que não devem prevalecer as chamas, não deve chegar ao ponto de somente existirem cinzas. De igual modo, como num momento e outro aparecem as labaredas mais altas, vez ou outra aparecem as cinzas. Elas se retiram mandando-se ar ao braseiro, para que não fique sufocado, sem respirar .
O grande segredo é, provavelmente, manter limpo e rubro o carvão. É isso que não é simples. Isso é que é cansativo. Isso é que faz desistirem os mais apressados. Aqueles que preferem ir às churrascarias
Quando se quer um churrasco duradouro, que dure tanto quanto deve durar a festa, deve-se cuidar do braseiro. Assoprando de vez em quando, colocando mais um pedaço de carvão, benzendo a chama com a salmoura. Não é fácil. Não é a toa que, não são todos os convivas, bons churrasqueiros. Não é por outra razão que a prática é difícil e trabalhosa.
Por outro lado, a milenar existência de um e de outro, demonstra que todos podem se tornar amantes ou churrasqueiros. Basta cuidado. Basta persistência. Basta dedicação para que a coisa não desande.
Não bastam serem boas as carnes. É preciso tempero. Normalmente o sal basta. Não deve ser por coincidência que o sal existe na saliva dos beijos e no suor do antes, do durante e do depois do amor. É preciso que o carvão seja de boa qualidade e seco. Carvão úmido não queima e quando o faz produz muita fumaça. Esta acaba fazendo chorar àqueles mais próximos.
Quando se abana a churrasqueira e mais nada acontece, o fogo apagou-se totalmente.
Não cabe apontar culpados. A festa simplesmente acabou.
Não se faz churrasco ou amor quando se deixa esfriar o necessário calor. Não se pode fazê-los com cinzas, com braseiros extintos.

domingo, 10 de outubro de 2010

Seixos e raízes


Destas caminhadas por entre as Astrapéias (Dombeya Wallichii) é que me veio a idéia das gravuras.
Neste caminho coalhado de seixos colocados para minorar a lama da estradinha me vem a lembrança das caminhadas que por aqui fizeram meu pai, vindo da Viseu de Portugal, minha mãe, meus irmãos e minha mulher, que se foram.
Estas pedras claras retiradas dos rios como subprodutos da areia extraída pelos areeiros. A compreensão de que se lá, no leito dos rios, fossem deixadas transmudar-se-iam também, sabe-se lá quando, em minúsculos grãos de areia. A reminiscência de cada uma dessas pedras esbranquiçadas desde os primórdios quando ainda eram gigantescas. O rolar, o bater-se umas contra as outras, as intempéries, os ventos e a força da água as transformaram nesses pequenos seixos polidos de formas arredondadas que se podem ver agora, parcialmente enterrados na argila que já existia no caminho. Água mole em pedra dura.
As raízes das Astrapéias que aqui e ali afloram à superfície, não sei se em busca de ar, água ou calor. Centenas, milhares, delas cruzando-se e mergulhando novamente terra à dentro. As próprias Astrapéias que floridas com esses milhares de cachos de cor rósea, alimentam outras tantas abelhas e insetos de todas as espécies. Os beija-flores e os outros pássaros de todas as cores. A mágica dessas plantas. Nunca uma delas, ao menos aqui, nasceu de sementes. E não se fale em falta de polinização já que a todos os instantes, a busca do néctar e do pólem proporciona as fecundações.
Aqui o que as reproduz é a estaca de galho.
Como se a mesma planta trazida de Madagascar, há muitos anos, fosse ganhando galhos e raízes em outros lugares. Como se aqui pudéssemos falar em clones. Um pequeno pedaço da mais antiga que para cá foi trazida reproduzindo-se aos milhares na impressionante mágica da vida. Como se cada pedaço de nós mesmos pudesse reproduzir outro ser semelhante e, depois, mais outro e mais outro.
Estranhas disparidades. Como vida e morte. Como se as pessoas que por aqui passaram fossem desaparecendo tornando-se apenas minúsculos grãos de areia da memória, lembranças indo e vindo ao sabor das chuvas e dos ventos. Como se as pessoas que por aqui passaram fossem se reproduzindo fincando aqui e ali raízes e descendentes.
A vida é uma coleção inesgotável de Astrapéias e seixos.

Das solidões solitárias ou acompanhadas.

Existe a solidão de quem está só porque perdeu a companhia e, durante algum, ou muito tempo, fica como que a pairar no ar, sem saber, ou sem ter, onde apoiar os pés.
Existe a solidão de quem supõe estar acompanhado. Aquele que se encontra andando numa avenida muito movimentada, ou almoçando num restaurante lotado, ou pendurado num transporte coletivo abarrotado de pessoas. Mesmo estando rodeado de milhares, centenas ou dezenas de pessoas ainda assim está só com seus próprios pensamentos.
Boas idéias acabam aparecendo nestes últimos momentos, quando você está, como se dizia no tempo do onça, dando tratos à bola.
Péssimas idéias também comparecem, apesar de não convidadas, nestas horas. É aí que bate a angustia, a depressão e aquele sentimento de abandono que já deve ter te alcançado dentro de um carro na avenida Paulista, no momento de rush. Até mesmo o aparelho de som ligado parece estar dando o fundo musical para a tua solidão. Não adianta trocar para um rock pauleira. Alguns solos de guitarra ou gritos lancinantes te puxam de volta como se estivesse amarrado com um potente elástico.
Há alguns que tentam espantar a tal, puxando conversa com o ausente/presente ao lado: Foda o trânsito hein? Com esse sal que puseram no arroz, não tem pressão alta que agüente, não é não? Geralmente essas e outras bobagens não resolvem. O desacompanhante ao lado pode estar lá com os seus próprios problemas ou estar no meio da solução de uma fórmula que dê fim ao cancro mole ou à gonorréia e vai ficar muito injuriado, o que pode fazer com que aumentem os seus problemas por causa de uma ofensa inesperada.
As crianças resolviam esses problemas criando amigos imaginários. Era comum, acho que ainda é, ver crianças conversando e até mesmo discutindo com esses amigos que só existem nas suas mentes.
Se as suas companhias não estão resolvendo o seu problema de sentir-se só sobre toda essa esfera que habitamos, crie um amigo ou amiga imaginária. Fale com eles, gargalhe da piada que lhe contar, vá mostrar-lhe o parque. Chore da desgraça que ele ou ela lhe contar. Afinal essa dor pretensamente imaginária vai ser igual à sua.
Não se importe com as pessoas aparentemente próximas fisicamente. Dane-se quem estiver olhando ou comentando. Não se envergonhe. No final das contas essas pessoas não são mesmo suas amigas.

sexta-feira, 6 de agosto de 2010

Sobre meu pai, injeções e punhaladas.

Meu pai aplicava injeções.
Não era médico, enfermeiro ou farmacêutico e não sei dizer onde e como adquirira tal habilidade.
Alguns dirão que espetar uma agulha num repolho, numa melancia ou numa bunda não requer assim tanta prática ou habilidade. Assino embaixo! O que fazia dele um mestre era o paciente jamais sentir qualquer dor, por menor que fosse. Obviamente refiro-me aos donos e donas das bundas ou músculos e não aos repolhos ou melancias.
Todos nós de casa, os parentes mais próximos e os vizinhos sempre o procuravam quando precisavam receber, por essa via, algum medicamento. Apesar de saber fazê-lo, por precaução e zelo, não aplicava injeções intravenosas.
Lembro-me de uma das vezes em que aplicou injeções em minha avó, mãe dele, quando ela lhe perguntou se ainda demoraria a picada ao que ele respondeu-lhe que já tinha terminado.
A mágica, segundo ele, consistia em desferir com a ponta de um dedo leves batidas sobre o ponto da aplicação. Com isso ele sentia se o músculo estava ou não retesado. Quando o sentia relaxado substituía a batida do dedo pela introdução da agulha e a injeção propriamente dita. Imediatamente em seguida voltava a desferir as ritmadas batidas com o dedo, por mais alguns instantes, o que segundo ele ajudava também a espalhar o remédio. Tudo transcorria numa única seqüência, como numa bem ensaiada apresentação. Nós os seus pacientes, e esse foi o caso de minha avó, quase nunca distinguíamos o dedo da agulha. Era como se ele, inquebrantável amante da verdade, da honestidade e da franqueza, se permitisse uma daquelas enganações benéficas intrínsecas aos mágicos ou ilusionistas.
É possível que facadas ou punhaladas, nada benfazejas, se precedidas dos tradicionais e habituais tapinhas nas costas surtam os mesmos efeitos. Aqui como lá, me fica a impressão de que as pancadinhas anteriores como que amortecem a área do ferimento, mas são ambas, senão apenas as posteriores que “distraem” a dor.
No caso das punhaladas nas costas, parece-me que o que mais dói não é o momento do golpe, a ponta do punhal, tal qual a ponta da agulha, penetrando na carne. O dolorido é o pós-trauma, a ferida aberta, a convalescença, a incerteza de recobrar a integridade.
Por mais absurdo que pareça, o que minoraria a dor seriam as pancadinhas sobre a região do corte. Minúsculas dores distraindo a dor maior. O cérebro recebendo afagos (ou as minúsculas dores se comparadas com a dor maior) no entorno da lesão profunda.
Como se não conseguisse ver ou encontrar o joio entre os amarelos montes de trigo.
Meu pai (homem que nunca apunhalou quem quer que seja), sua benção!

terça-feira, 20 de julho de 2010

De madames, cachorros, gramados e cagadas.

Juro que é verdade! Há algum tempo assisti num dos canais de televisão uma madame reclamando que havia gente demais cuidando de crianças abandonadas e muito pouca gente cuidando de cachorros abandonados. Ao que me recordo, movia-se num carrão importado e transportava sacos de ração para os abandonados de quatro pernas. Nada contra dar-se um destino digno e adequado aos cães e gatos (ou quaisquer outros animais) abandonados. O que me parece indiscutível é que nunca haverá gente demais para cuidar de crianças abandonadas. Se houvesse uma só, ainda assim seria responsabilidade de todo mundo.
Já escrevi aqui a respeito da metodologia utilizada para cortar a grama de um gramado, com uma roçadeira motorizada, para quem, como eu, tem cães soltos. Quem inventou a expressão “espalhar merda”, por certo tinha cães soltos, um gramado e uma roçadeira motorizada. Ditos cães tem o péssimo hábito de defecar sobre a viçosa grama. Tem mais, nunca, saliento, nunca, voltam a cagar sobre o montinho anterior, o que poderia facilitar o trabalho de limpeza. Mais ainda, a viçosa grama, se não socorrida em tempo vai a óbito debaixo daquele monturo de porcaria. Engana-se redondamente quem imagina que “aquilo” possa servir de adubo.
Para quem não é dado a criar o referido quadrúpede, é necessário esclarecer que o tamanho do monturo é diretamente proporcional ao tamanho do cachorro e, por conseqüência, do orifício expelidor. É preciso dizer também que os cães sabem de antemão por onde deveremos passar e, além disso, sabem se estaremos de sapatos ou pneus novos. Quanto mais reentrâncias houver no solado do sapato ou sulcos nos pneus, mais aderentes estarão os dejetos. Sabem com a devida antecedência quando deveremos sair ou voltar para casa. Programam-se para depositar os toletes pouco antes de voltarmos. Sabem que se o fizessem antes de sairmos, no caso dos carros, os restos iriam sendo atirados pelas ruas e estradas. Como a deposição ocorre pouco antes do nosso retorno, geralmente no escuro, acabamos carregando a pasta e o respectivo cheiro para dentro de nossas casas ou garagens. Para distrair ainda mais nossa atenção, quando chegamos, latem, uivam e abanam os rabos com o único e firme propósito de fazer com que desviemos nosso olhar do exato ponto onde se deu o depósito.
Deveria ser proibida a criação de cachorros grandes. O padrão deveria ser o Chihuahua. Cães maiores deveriam ser mantidos nos circos ou zoológicos para que pudessem ser apreciados à distância, assim como os elefantes ou hipopótamos. Afinal, quem cuida de remover a bosta desses bichos, tira de letra a de qualquer cachorro. O critério para ser mantido nas residências poderia ser também o volume dos dejetos diários. Nada maior do que o tamanho de um quarto de uma salsicha comum e obrigatoriamente seco. O governo deveria proporcionar cursos para que todos os cachorros passassem a defecar numa espécie de latrina com a obrigatoriedade de dar a descarga. Até estarem devidamente instruídos ficariam internados em escolas sob a responsabilidade de um ministério ou secretaria criada para tal finalidade. Todas as despesas daí decorrentes correriam às expensas de fabricantes de rações e proprietários de lojas de produtos para cães.
Hoje, quando fazia o humilhante trabalho da coleta dos toletes amolecidos pelas chuvas, lembrei-me da referida madame. Desejei que estivesse aqui. Ia obrigá-la a engolir, no mínimo, as próprias palavras.

sábado, 19 de junho de 2010

Da normal e corriqueira deglutição de batráquios.

As coisas nos vão sendo empurradas garganta abaixo, assim de mansinho, até que um dia, quando nos olhamos no espelho, logo pela manhã, durante a primeira escovadela de dentes, damos com um dos dedos do pé traseiro de um grande e gordo sapo entalado entre os dois dentes centrais superiores da nossa própria boca.
Pior! Muito pior! Quando escancaramos os maxilares à procura do restante do referido anfíbio, nada mais encontramos.
Fica, inicialmente, a dúvida sobre o destino do bicho. Teríamos, durante a noite ou madrugada anterior, quando estávamos com a boca arregalada, roncando e, quiçá, babando, apanhado com os dentes a pata do animal quando este já escorregava garganta abaixo ou a mordida e amputação ocorreram quando o pobre já fugia apavorado buscando insetos em outros locais menos ensalivados?
Voltamos correndo ao quarto, à cama, ao criado mudo. Levantamos travesseiros, lençóis e cobertores. Abaixamo-nos para observar sob a cama. Ficamos ali naquela posição constrangedora, a mercê dos inimigos, ou, como dizia meu pai, na posição em que Napoleão perdeu a guerra e nada. Se existia algum sapo, e o dedo entre os nossos dentes é prova cabal e irrefutável, não se encontra mais dentro dos nossos aposentos.
Para piorar, e tudo pode piorar, nos acomete uma maldita sensação de peso no estomago. Por mais improvável que possa parecer, chegamos até mesmo a ouvir um ou outro intestino coaxar e parece-nos que alguma coisa tenta desesperadamente sair pelo que deve ser a cicatriz interna do nosso umbigo (sim, porque deve existir uma do lado de dentro, da mesma forma como existe esta no meio das nossas barrigas, do lado de fora).
Não adianta enfiar o indicador e o médio até onde estão, ou deveriam estar, nossas amídalas, numa desesperada tentativa de regurgitar. Pode vir o almoço e a janta de ontem. O bicho fica.
Não adianta ainda sentar-se no vaso sanitário e aguardar a saída, como fazem os traficantes internacionais de cocaína. O bicho não sai. Lá está e lá permanece.
Não se desespere, entretanto. Assim como tudo na vida, essa desagradável sensação também passa. Um dia após o outro, uma semana depois da outra e, quando você se dá conta, já faz parte de sua vida. Fica-lhe parecendo que o batráquio era genético. Já estava no óvulo ou no espermatozóide que lhe deram origem.
Relaxe, depois de algum tempo, ao observar-se pela manhã, no espelho, você percebe, como eu, que continua com a mesma normal aparência aparvalhada que possuía antes.

sábado, 5 de junho de 2010

Iojun

Poderia dizer que se trata de uma palavra japonesa e definir um significado para ela. Não seria de todo uma má idéia. No caso presente, a melhor definição para iojun seria período doloroso, dias sofridos, difíceis, que voltam de tempos em tempos, mas que sempre deixam antever a possibilidade da libertação, da alforria.
Ocorreu-me hoje, três de junho. Acordei cedo e o dia amanheceu com aquela chuva fraca de ficar na cama. Na impossibilidade, bateu aquela sensação de friagem que corre pelo corpo nos dias de tempo nublado, úmidos e solitários. Meio característicos do mês de junho.
Não é de hoje. Vem destes tempos de difíceis questionamentos e embaçados ou obscuros projetos de dias vindouros. Vem do recente primeiro aniversário da radical mudança da minha vida. Do primeiro ano, depois de quase quarenta, sem a presença da companheira. Da visita ao cemitério. Da lápide fria, com plaqueta erroneamente escrita. Das três rosas brancas lá encontradas. Da missa com a menção do nome dela. Final de maio.
Tem a ver com ontem, data do aniversário, dia em que faria cinqüenta e cinco anos e não fará. Tem a ver com o próximo dia oito quando ela, com absoluta certeza, me acordaria comemorando o aniversário de trinta e seis anos de casamento. Inicio de junho.
Tem a ver com imagens abstratas. Daquelas com as quais a nossa visão e razão não atinam, de imediato ao menos, com o significado. De carências. De procuras por objetivos indefinidos. De buscas por tesouros desconhecidos com mapas ilegíveis.
Tem a ver com poesia concreta, que me perdoem Décios, Haroldos e Augustos, ou talvez, mais propriamente, com Hai-kais. Estes necessitam três versos e 17 sílabas. Imagem, concisão e objetividade. Na minha cabeça nada mais conciso, nada mais hai-kai. Hai-kai do hai-kai: Iojun .
Io, fim de maio. Jun, começo de junho. Período que abrange os dias, noites, frios, solidões, céus sombrios e nublados que ocorrem, não necessariamente apenas, entre vinte de maio e oito de junho. Cores frias, azuis e verdes. Não somente, entretanto. Desejo e expectativa de dias e noites menos frias e menos solitárias. Cores quentes num dos cantos do quadro. Leves, mas esforçadas faixas de amarelos, laranjas e vermelhos solares invadindo esperançosamente a imagem. Pequena, concisa imagem. Redentora resgatando a nave abandonada no imenso oceano.

quinta-feira, 3 de junho de 2010

Píncaros e precipícios.

Vivemos nas montanhas peruanas.
Algumas vezes subimos aos picos mais altos. Passamos por cima das nuvens brancas. Ficamos com a impressão de estarmos sobre um colchão de algodão. Um gigantesco colchão de algodão doce recém retirado dos carrinhos com rodas de bicicletas e vidros iluminados por lampiões a gás.
Achamos que poderíamos nos deitar ali e que as nuvens nos suportariam. Ficaríamos deitados de barriga para cima contemplando o azul do infinito com a paz semelhante àquela que se adquire depois de amor bem feito.
Nos sentimos em Machu Picchu e julgamos que nossos sentimentos e felicidade perdurarão como perdura a milenar cidade. E mesmo que se desgastem, sobrarão, ainda, ruínas tão belas como estas que contemplamos, o que ainda seria formidável e digno de cuidadosa manutenção.
Por vezes capotamos precipício abaixo. Assim, sem prévio aviso, sem placa e sem sinal luminoso de advertência. Vamos rolando e caindo, ferindo-nos nas pedras pontiagudas do penhasco. Do alto ao fundo pensamos como isso pode ter acontecido. E a insatisfação, a sensação de impotência e as dores nos fazem crer que não há escapatória. É chegar ao final do poço. Dar com a cara no lodo acumulado. Tentar levantar a cabeça e erguer os olhos na busca de onde estivemos antes da falta de atenção e do escorregão. Tentar buscar o calor e a luz do sol que se encontram além do distante circulo de luz da borda, acima de nossas cabeças. Tentar se por em pé para manter os olhos, os ouvidos, as narinas e a boca fora desta água estagnada e apodrecida.
Por vezes imagino sermos guiados por algum equipamento eletrônico. Se é o ar puro das montanhas que inunda nossos peitos, então é hora da rasteira, do rabo de arraia, da pernada, da casca de banana à frente dos nossos pés e lá vamos nós ladeira abaixo. Se for o podre da água e da lama das profundezas que nos encharca, então somos empurrados para cima pelas nossas lágrimas. Quase sempre, entretanto paramos alguns degraus abaixo de onde estávamos antes da queda, exatamente assim como uma bola de borracha largada do alto que a cada batida no chão sobe menos que da vez anterior até imobilizar-se numa depressão do terreno.
Na impossibilidade de permanecermos no topo ou na falta de vontade para lutarmos por ele, talvez seja o caso de, como se diz, parar por cima. A continuação pura e simples, sem um esforço em contrário, por uma lei fundamental da física, nos levará, inapelavelmente, ao fundo sombrio e triste do buraco.

segunda-feira, 19 de abril de 2010

As mortes de nossas mães.

Apesar de algumas opiniões em contrário, como dizia o Altemar Dutra, sentimental eu sou.
Ontem e hoje vi algumas reportagens a respeito da morte da mãe de Roberto Carlos, Laura Moreira Braga com 96 anos de idade, a Lady Laura da música que ele fez homenageando-a.
Notei o cuidado ao dar a notícia, das pessoas que o cercam há muitos anos, quando ele ainda se apresentava nos Estados Unidos. As emissoras apresentaram imagens do afeto que um nutria pelo outro, como aliás acontece com a quase totalidade dos filhos e mães.
Com relação ao cantor, o grande azar da vida dele talvez tenha sido nascer no Brasil. Fosse espanhol ou estadunidense seguramente seria idolatrado como um dos maiores compositores e interpretes da música popular mundial, feito uma penca de medíocres (quando comparados a ele) tipo Júlio Iglesias ou Manolo Otero.
O que me pegou pela emoção, entretanto, não foi a eventual injustiça contra o artista, já que ele tem quem e como se defender disso com muito maior condição e propriedade que eu.
O que me causou um nó na garganta, foi lembrar-me de minha própria mãe e da minha mulher e mãe dos meus filhos. Por mais paradoxal que pareça, acabei sentindo uma grande inveja do cantor.
A Laura, mãe dele, morreu com 96 anos, enquanto que a minha, Mathilde, faleceu com 72 e a Márcia, mãe dos meus filhos, nos deixou a todos nas vésperas de completar apenas 54 anos. Brutais diferenças.
Além da inveja pelo menor tempo que convivemos com as nossas Ladies, sobrou-me a incompetência de compor-lhes músicas, o que me obriga a tomar emprestados versos que se apliquem as nossas Lady Mathilde e Lady Márcia.

“Quantas vezes me sinto perdido
No meio da noite
Com problemas e angústias
Que só gente grande é que tem
Me afagando os cabelos
Você certamente diria
Amanhã de manhã você vai se sair muito bem.”
“Nos momentos alegres
Sentado ao seu lado, eu sorria
E, nas horas difíceis
Podia apertar sua mão”

Mais ainda, algumas vezes, como encerra a canção, sem nada dizer, vocês diziam tudo o que precisávamos escutar de vocês.
Pela proximidade e pelo carinho demonstrados, a partida de Laura vai abrir um enorme buraco na vida de Roberto Carlos. Os nossos, no meu caso duplo, com as ausências das nossas Senhoras, já estão abertos faz algum tempo.

sábado, 17 de abril de 2010

Buracos pedagiados

Rodovia pedagiada é aquela na qual se cobram tributos (o famoso pedágio) de quem dela se utiliza. São caracterizadas por aquelas enormes baias (semelhantes às utilizadas nas corridas de cavalos) que adornam as chamadas praças de pedágio. Em tese todos nós já pagamos impostos suficientes para que possamos trafegar por onde bem entendermos. Em tese, também, esses impostos destinam-se, em parte, a manter conservadas as vias por onde passamos. As versões oficiais nos atocham os pedágios goela abaixo com a lenda de que as estradas pedagiadas serão primorosamente mantidas. Nós, como os referidos cavalos das baias, acreditamos.
De vez em quando acredito que o Vale do Ribeira é uma região destinada a testar nossas reações frente aos desmandos administrativos. Com quase certeza, um colegiado de especialistas fica examinando nosso comportamento, diante das cagadas e sacanagens cometidas, para avaliar em que exato instante estourará nossa paciência. Esse trabalho acadêmico será depois apresentado em congressos internacionais.
O que está em curso, atualmente, estou certo disso, é um estudo para ver como reage a população diante de uma espetacular fonte de lucros: Os buracos pedagiados.
Grosso modo, toma-se uma estrada federal, construída com recursos pagos pelos cofres públicos e oferta-se a mesma à iniciativa privada, que de bom grado a aceita. Imediatamente constroem-se as tais praças (nome agradável para o local onde se tomará nosso dinheirinho). Depois se corta o mato e o capim que foi deixado crescer enquanto era pública a rodovia. Em seguida tampam-se alguns buracos com alguma massa vagabunda que resista a alguns pingos de chuva. A seguir já se começam a encher os gigantescos cofres das empresas que receberam de presente as vias. O próximo passo é aguardar a época das chuvas e deixar esburacar.
A BR 116, principalmente no trecho do Vale, por onde mais trafego, foi generosamente aquinhoada pelas crateras. Obviamente se divulgará que as mesmas devem-se às chuvas, o que não resiste a mais reles das argumentações. Por mais estranho que possa parecer, as chuvas caem desde que o mundo é mundo e isso não deveria ser mais novidade pra ninguém. Muito mais recentes são o asfalto de terceira ou quarta categoria e a safadeza de se trabalhar tão mal.
Aqui é absolutamente comum ver-se o asfaltamento “self service”. Um caminhão parado sobre a pista carregado com um monte de alguma coisa parecida com concreto asfáltico, um funcionário e uma pá. Entre um veículo e outro, o funcionário, com boa pontaria decorrente da experiência, arremessa, de cima da caçamba, uma pazada ou mais da tal coisa. Os veículos (os nossos) que passarem e não desviarem dos buracos é que vão compactar o material. Por esse serviço prestado à Concessionária, o usuário da rodovia, além de nada receber, ainda paga o pedágio normalmente (como funcionários temporários dessas empresas, deveríamos recorrer à Justiça do Trabalho).
Em razão da absurda exigüidade de tempo entre o porco conserto e o reabrir do buraco não é de causar espanto descobrir-se que a tal massa do remendo é feita com açúcar ou sal. Só assim para resistir tão pouco aos pingos das chuvas.
Se o subprocurador geral da República, Aurélio Vieira Virgílio Rios, já havia afirmado que “As empresas que administram as rodovias privatizadas têm lucros exorbitantes só comparáveis aos do tráfico internacional de drogas”, imagine-se o que dirá com a fabulosa invenção dos buracos pedagiados.

sexta-feira, 16 de abril de 2010

De andanças, adoções e garimpagens

No último dia 06, às 18:33 horas, com 50 centímetros de comprimento e 3,395 quilogramas aportou neste mundo velho sem porteiras, o filho de Yza e Renato, a quem, me deram a honra de chamá-lo Flávio. A Yza que conheci num momento de extrema dificuldade foi se tornando assim como que uma querida filha adotada, dona de uma formidável capacidade de dar a volta por cima (mestre Paulo Emílio Vanzolini que me perdoe mas ela é a personificação do seu “levanta, sacode a poeira e dá a volta por cima”). Dotada de um impressionante poder de transformar dores e lágrimas em alegrias e sorrisos, a mãe, certamente, saberá como dar ao xará a atenção e os carinhos que podem lhe ter sido negados quando era ela mesma tão pequena. Por certo a generosidade e a responsabilidade de ambos, Renato e Velyza, proporcionarão ao menino o suporte físico e afetivo para que se torne um ser humano digno e, em decorrência, capaz de fazer diferença neste mundo que se lhe descortina agora.
Coincidentemente, um outro Renato (o Zé, um dos irmãos que tive a felicidade de adotar pelo caminho) já tinha me feito surpresa semelhante quando do nascimento de uma linda menina (hoje moça encantadora) filha dele e da Samira. Conspire o Universo para que o recém nascido possa receber também a mesma dose de inteligência, simpatia e boa ventura que coube à Flávia.
Resta a orgulhosa certeza de que turrão, chato e radical devo ter deixado escapar, num descuido, alguma coisa que marcou positivamente essas pessoas. Estes imerecidos afagos e descabidas homenagens fazem parte da herança imaterial que vou deixar aos meus filhos e netos, como já ocorria com uns escritos e depoimentos que guardo comigo. Sobra a convicção de que os amigos (parentes de sangue ou de andanças) são como exímios garimpeiros que conseguem enxergar dentro da bateia, entre a água turva, o lodo e a sujeira, o brilho da pequenina porção de metal precioso que cada um de nós carrega dentro de si.

quarta-feira, 7 de abril de 2010

Compartilhar despertares

Se eu pudesse definir, de maneira absolutamente curta, o que é casamento, diria “dormir junto”. Talvez melhor ainda seria “acordar junto”. É claro que a definição estaria fundada na minha própria experiência e expressaria a redução das reduções de uma relação absolutamente complexa. Sei de casos em que casais dormem em camas e até em casas separadas, mas, pra mim, ainda valem os termos quarto do casal, cama de casal e outros significando a mesma união de corpos e espíritos, de maneira continuada.
Quando falo em dormir juntos, também não estou me referindo ao ato sexual que exige o estar acordado. É o dormir e o acordar com alguém ao seu lado. O conforto e a segurança da pessoa amada ao alcance de um sussurro ou de um toque. O calor de um outro corpo nas noites frias do inverno. O desconforto de um ronco ou de um braço quente sobre o corpo quente numa noite de verão, o virar e desvirar durante o sono. O acordar com o cabelo desarrumado, diferentemente das bobagens dos filmes e das novelas em que os mocinhos e as mocinhas dormem e acordam maquiados, penteados e com o refrescante hálito dos Alpes suíços.
Uma coisa quase presume outras. Café da manhã e jantar juntos, por exemplo. Conversas sobre os projetos ou as ocorrências do dia, tanto as agradáveis quanto as indesejáveis. As agradáveis melhoram e afagam os espíritos de ambos. As desagradáveis são mais bem toleradas e suportadas, quando divididas ou compartilhadas. Noutras ocasiões é simplesmente o ombro ou o ouvido amigo a escorar ou escutar as palavras que deixaram de ser ditas durante todo o dia e que precisam ser colocadas pra fora para evitar o estouro das nossas represas internas.
Permanecem as individualidades. O trabalho de cada um, os hábitos mais arraigados, os passatempos, mas mesmo estes acabam sendo influenciados pela companhia e pela convivência.
Como já escrevi, trata-se de construir um novo ser composto de outros dois, como num jogo de encaixes no qual as peças vão se polindo e ajustando até formarem um só conjunto.
Há quem diga que não é mais assim. Que isso é coisa do passado. Que as relações duradouras estão fora de moda. Que a convivência desgasta a relação. Acredito e espero que não.
Esta semana uma menina que eu adoro e um rapaz de muita sorte resolveram dividir uma casa e as próprias vidas. Depois de um namoro de muitos telefonemas e encontros aos finais de semana, feriados e férias, Thais e Antonio vão compartilhar diuturnamente despertares.
Faço votos que a inteligência de ambos e o amor que sentem possam contornar ou suplantar os problemas e dificuldades que certamente virão. Que cada arranhão na convivência sirva de degrau para aprimorar a felicidade da dupla.
Que a advogada e o médico reservem tempo e espaço para cuidarem bem um do outro e que cliente nenhum receba mais atenção do que as metades que começaram a formar um único todo. Felicidades!

segunda-feira, 5 de abril de 2010

Chagas e cicatrizes

Fui retirado à força de um casamento que durou cerca de trinta e cinco anos.
Naqueles dias, há cerca de dez meses, escrevi sobre a perda de uma parte do próprio corpo, de um membro, uma amputação.
Depois, o tempo mais o instinto da própria sobrevivência foram cauterizando umas feridas e escondendo outras como se o pó das ruas ou a antiga sulfa fosse se depositando sobre as chagas.
Por mais estranho que possa parecer as cicatrizes físicas, expostas, vão se incorporando ao nosso corpo e, boa parte do tempo, nos esquecemos delas. Vamos nos acostumando às marcas ou à falta de parte de um dedo como se tivéssemos nascido assim mesmo.
As que, porém, se escondem sob o couro cabeludo, ficam indo e vindo, com maior ou menor freqüência ou com mais ou menos intensidade dependendo do estímulo que recebam. Algumas delas, que julgamos totalmente curadas, repentinamente voltam como se acionadas por um interruptor invisível. É como as lâmpadas das vias públicas acesas automaticamente pelo escurecer dos fins de tarde ou dos prenúncios das tempestades. É o local do acidente, uma noite chuvosa, um dia de solidão ou a quebra de antigas rotinas. Aprender ou reaprender as coisas simples do dia a dia como as tarefas da casa. É quebrar um prato ou copo ao lavar a louça. Estragar uma roupa ao lavar ou passar as próprias vestes. Varrer ou lavar o chão. É a constatação do desamparo, o desassossego . É a percepção da incerteza do amanhã, por mais que todos os amanhãs tenham sido sempre incertos.
O mais plausível é que feridas profundas e amputações jamais cicatrizem. Num e noutro caso, físicas ou psicológicas, de vez em quando voltam a embargar nossa voz e tornam a sangrar. Quase sempre pelos olhos. Não mais aquela cor viva, encarnada, escarlate. Agora são gotas de um sangue translúcido, incolor, que inundam nossos olhos e escorrem pelo rosto a nos lembrar da imensa quantidade de retalhos que compõe a colcha da nossa existência.

quinta-feira, 25 de março de 2010

A tolerância ao canalhismo e ao cafajestismo.

O Big Brother não serve pra absolutamente nada. De qualquer forma é uma maneira inteligente da Globo faturar muito dinheiro com os anúncios, merchandising e ganhos telefônicos proporcionados pelos milhões de seguidores do programa.
Muito se diz a respeito da manipulação dos resultados e até mesmo sobre a edição das imagens que chegam ao público que participa das votações preservando ou dinamitando determinados participantes.
Não é, entretanto, exatamente isso que me preocupa. A programação dos canais de televisão anda mesmo nessa linha de rodapé e nada ou quase nada se poderia classificar como proveitoso ou interessante para a cultura ou educação da população. Mesmo os programas que teimam em parecer de entretenimento ou pseudo-informação (Fausto, Silvio, Gugu, Ratinho, Datena, Jô, Ana Maria, Angélica, Xuxa, Hulk, Eliana e outros quetais) se equiparam ou perdem em “conteúdo” para um “Chaves” da vida, o que, cá entre nós, é muito triste.
O mais preocupante, porém, é o resultado das votações, verdadeiras ou nem tanto, dos chamados paredões do caça milhões da Globo/Endemol. Supõe-se que as mulheres sejam a maioria entre os eleitores. Todos com quem converso dizem que o jogador Marcelo Dourado, dentre os participantes, é o que reúne, no mínimo, as maiores características de mau-caratismo da casa e, no entanto, um dos menos votados quando se trata de eliminação.
Esses dados, aliados à convicção de que mães e professoras, mais do que pais e professores, são as maiores responsáveis pela educação e formação da personalidade de filhos e alunos, me deixa o pavor de que estejamos preparando uma geração de pessoas ainda mais tolerantes ao canalhismo, ao cafajestismo e à discriminação racial e sexual.
O grande problema é que já temos canalhas, cafajestes e discriminadores demais. Todos se dando bem na vida pública, sentimental e financeira. De que maneira é que se vai incentivar alguém a ter caráter, honestidade, decência e a respeitar as diferenças? Com a promessa do paraíso depois da morte?.
Se não tiver outro jeito, pelo menos o Boninho (manda-chuva do programa e um dos que atirava ovos podres nos transeuntes da Barra da Tijuca) poderia permitir que toda semana o Bial e o Valverde fossem também ao paredão. É claro que assim como o Dourado, continuariam no “irreality show”. Mas, e a esperança é a última que morre, quem sabe num descuido das moças votantes um deles não seria defenestrado?

terça-feira, 23 de março de 2010

O aguardado resultado do Prêmio Clientela.


O ano passado, em razão do péssimo atendimento que tive de bancos, seguradora, empresas de telefonia fixa e móvel, administração pública, etc, resolvi instituir o prêmio Clientela para ofertar à empresa que mais se destacar no descaso aos seus consumidores e clientes.
Estivéssemos num outro local, mais sério, onde os contratos descumpridos, as propagandas enganosas e os verdadeiros estelionatos fossem efetivamente punidos, a história seria outra. Aqui, onde nem as agências reguladoras governamentais (tipo Anatel) funcionam, é preciso outra atitude. É preciso que os próprios consumidores metam a boca no trombone para avisar uns aos outros que produtos ou marcas deveriam evitar. Não se pode esperar muito da mídia, notadamente dos grandes veículos (a chamada mídia gorda ou paquidérmica) que tem o rabo preso com os anunciadores.
No meu caso a disputa mais renhida ocorreu entre a Marítima Seguros, a Telefonica e o Instituto de Previdência do Estado de São Paulo. Espero esquecer a primeira, já que nunca mais contratarei seus serviços. Já a segunda e a terceira, aparentemente não há muito como fugir. A segunda porque, para telefonia fixa, aqui, ao que me consta, não pode haver outra empresa prestando o serviço e a terceira porque, como funcionário público aposentado, não há para onde correr.
Sabem os eventuais seguidores destas mal traçadas linhas que Clientela era o nome de uma vagabunda cadela que primava em defecar no meu mal cuidado gramado.
Sabem também, ou deveriam saber, que Clientela faleceu deixando filhos, filhas e numerosos amantes. Tratava-se de uma cadela amiga que abanava o rabo quando lhe aprouvesse e, quase sempre, quando tinha algum interesse imediato, via de regra, relacionado a afagos ou à alimentação. Óbvio que ficava muito mais afável quando algum vira-lata canalha se aproximava dela, mas isso não lhe tira o mérito e nem a justiça da homenagem (gostar ou preferir os mais canalhas não era privilégio dela, haja vista alguns dos programas mais vistos da nossa televisão ou mesmo as votações de programas do tipo Big Brother).
Das empresas que concorreram ao laurel, a vencedora, com vários corpos de vantagem, foi a espanhola empresa de telefonia Telefonica. Estranhamente, meu computador teima em grafar telefônica, fechando o “ó” da empresa (na Espanha eles preferem o “ó” bem aberto). Aqui, imagino que já pensando na reação do público quanto aos maus serviços, por precaução, optaram por um “ó” médio, nem tão arreganhado e nem tão fechado. Foi quase covardia. Em todos os quesitos a empresa ganha de lavada. Desrespeito ao que foi contratado, propaganda enganosa, descaso, desleixo e duas ou três dezenas de eteceteras.
Ao que imaginamos, o segredo sobre o vencedor da premiação (guardado a sete chaves) deve ter vazado. Tanto assim que, para impedir a divulgação do nome da empresa, desde dezembro último estamos sem telefone fixo e, por conseqüência, sem Internet. Porém, como somos brasileiros e não desistimos nunca, surrupiamos um modem de um seguidor (sosseguem os demais seguidores já que não há possibilidade desse fato repetir-se) e lançamos ao mundo o tão aguardado resultado:
O Troféu Clientela vai para: Telefonica!
The Clientela Trophy goes to: Telefonica!
Die Clientela Trophäe geht nach: Telefonica!
El Trofeo Clientela va a: Telefónica!
Le Tropheé Clientela va à: Telefonica!
Il Trofeo Clientela va a: Telefonica!

Como música tema do ato da premiação, da obra de Chico Buarque de Holanda “Geni e o Zepelim”, o verso (traduzido para vários idiomas) “Joga bosta na Geni”, com o nome da famosa prostituta sendo substituído pelo nome da empresa vencedora.
No palco, num gigantesco telão, imagens da saudosa Clientela obrando.
“Joga bosta na Telefonica;
Throw shit on Telefonica;
Tire mierda em Telefónica;
Jeter merde sur Telefonica;
Gettare merda su Telefonica.”

segunda-feira, 22 de março de 2010

O passamento de Clientela.

Quando, no ano passado, absolutamente inconformados com os péssimos serviços que recebíamos de empresas, órgãos públicos e outras instituições, comentamos acerca da necessidade de tornar pública essas nossa insatisfação, surgiu a idéia de instituirmos um prêmio anual, o Troféu Que Bosta, para laurear a pior entre as prestadoras de quaisquer serviços.
No momento em que dávamos os retoques finais às regras para a premiação e imaginávamos a forma definitiva do troféu a ser entregue, nossa cadela Clientela se pôs a obrar e em seguida a latir olhando para nós e para sua obra alternadamente. Todos nós que ali estávamos entendemos que Clientela havia prestado atenção à conversa e decidira contribuir. Concordamos por unanimidade e decidimos que dali em diante Clientela seria a responsável pela confecção (se assim podemos chamar) da estatueta (obra me parece mais adequado) que passaria a ser entregue anualmente ao ganhador ou ganhadora.
Por força do destino, ou por força de algum complô dos prováveis ganhadores, no final do ano, Clientela foi encontrada morta antes mesmo de obrar o troféu definitivo em sua primeira edição. Por essa razão decidimos que o prêmio receberia o seu nome e, por justa homenagem, seria uma representação da pobre cadela em ação e, por absoluta impossibilidade, não mais a sua própria obra.
Que Clientela descanse em paz e que no paraíso dos cães haja muita ração de qualidade e carne fresca magra, coisas que nunca teve aqui. Que os cachorros de lá tenham mais dignidade e caráter, se é que, mesmo lá, alguém se importa com isso.

Não é fácil!

Hoje acordei com a macaca. Não se trata de nenhuma companhia feminina e muito menos que tenha eu dormido com o referido animal. Trata-se de ter dormido mal e ter acordado assim como que com raiva do mundo.
Uma vez li num livrinho que um sitiante tem somente duas alegrias na vida. Uma quando compra o sítio e a outra quando consegue vendê-lo. É claro que o autor não se referia aos que adquirem sítios em Miracatu e muito menos em Musácea, principalmente na atual administração. Fosse o caso, provavelmente diria que não há alegria alguma.
De antemão esclareço que vivemos aqui diversas alegrias. A tranqüilidade do lugar, a família reunida, as crianças crescendo livres e bem dispostas e, principalmente longe da agitação e dos perigos das cidades grandes.
Depois os filhos cresceram, foram estudar fora, constituíram ou estão constituindo família e só muito raramente aparecem. Depois foi a vez do acidente que levou a Márcia e aí vai ficando a sensação de que a área foi ficando maior e os problemas se avolumando.
O mato, como as crianças atuais, parece estar se alimentando com os hormônios que se encontram no leite, nas carnes e nos ovos. Cresce com enorme vigor e rapidez.
A luz falta a cada tempestade e estas estão mais freqüentes. Descobri que as raposas sobem nos fios e caminham até o transformador. Quando colocam o rabo num fio e uma das patas no outro ocorre o curto circuito. Morrem eletrocutadas levando com elas a energia elétrica até que a Elektro venha religar o sistema. As estradas estão todas esburacadas e os automóveis menos preparados para elas. O maldito telefone fixo, da maldita telefonica espanhola desapareceu do bairro e sequer dão qualquer explicação. Com ele foi-se a Internet.
Há poucos dias as chuvas levaram metade da estrada e a prefeitura resolveu furtar caminhões e caminhões de terra de um barranco no sítio. Como o serviço foi porco, as novas chuvas levaram a terra posta para o leito do ribeirão e daí para o rio Itariri. É literalmente, sem contar o furto, o dinheiro público sendo jogado fora e usado para assorear os rios. Ontem descobri que muito mais terra foi surrupiada para uma nova tentativa de consertar a estrada vicinal. Antigamente existia um negócio chamado ponte, mas isso ainda não chegou por aqui.
Já falei para os moleques que qualquer dia troco tudo isto aqui por uma bicicleta velha e saio pelo mundo.
Tem gente, ainda, que me pede pra sorrir mais!

Experimentemos um modem!

Retomar os escritos, não é coisa fácil. Preocupo-me em não errar ou cometer injustiças e, quando percebo que posso estar enganado a respeito de qualquer assunto, faço pesquisas ou recorro a mais de uma fonte.
Publicar alguma coisa aqui no blog implica, necessariamente, em estar ligado à Internet. No meu caso, como disse, o próprio ato de escrever, para essa finalidade, torna imprescindível a conexão telefônica. A solidão a qual me imponho para redigir, impossibilita o uso de Lan Houses.
Acreditasse eu na maldade humana e diria que Bush e seus canalhas invadiram o Iraque por causa do petróleo e não por causa das barbaridades cometidas por Sadam. Diria que boa parte dos políticos concorre às eleições para rechear as suas burras particulares às nossas custas e não para melhorar a vida do conjunto da população. Diria que a mídia existe para perpetuar o status quó. Diria que os péssimos serviços da Telefonica são propositais para que os habitantes das áreas mais distantes ou abandonadas (como Musácea), impossibilitados de usar telefonia fixa de qualidade (mesmo que de péssima qualidade), sejam obrigados a adquirir celulares ou modems da Vivo (da qual, por absoluta coincidência, a Telefonica é sócia) muito mais caros que os velhos fixos.
Poderia até brincar dizendo que os telefones do bairro, incluindo o meu, emudeceram há meses para que eu não continuasse baixando o porrete na tal espanhola. Seria muita presunção mas, como no capitalismo selvagem vale tudo, quem é que me pode negar o chiste?
Porque dá satisfação e é uma forma de exorcizar as angustias do dia a dia é que preciso escrever, pintar ou gravar. As duas últimas andam meio paralisadas, mas continuo me esforçando. O publicar no blog, ainda mais com a carinhosa solicitação (como já havia feito o André) da Talitha, retorna agora. Vale o carinho deles e a quase criminosa apropriação do modem do Fábio, que torna possível continuar, sem telefone fixo, daqui mesmo, desta abandonada Musácea.
Valeu gordo, valeu menininha (Fagundes é bom ou ruim?), valeu moleque (se me convencer de que este negócio da Vivo funciona, compro um e te devolvo este).