
Com muito custo, lembrei-me da saída de casa. Da passagem pelo colégio para apanhá-la. Do meu teste ergométrico. Do retorno pela estrada. Das paradas para fotografar nuvens. Da entrada na cidade para pagar o débito do cartão. Da compra de comida para os cachorros. Da volta à rodovia e do acesso à Padre Manoel da Nóbrega.
Daí em diante, nada. Dos cerca de três quilômetros até o local da catástrofe, nada.
Depois, dor e o chacoalhar da ambulância numa estrada de piso irregular ou esburacado. A chegada ao hospital e a dor nas costelas, no braço e no ombro direitos. As minhas insistentes perguntas sobre ela e as respostas evasivas: “Os feridos são divididos entre os hospitais”.
O arrastar do tempo. A dúvida se estava realmente comigo. A vontade de pedir a alguém que ligasse para casa para avisá-la do acidente. Em seguida a certeza de que, como sempre, tinha me acompanhado ao médico. A quase certeza de que se meu lado direito tinha sido mais ferido e se ela estava, como sempre, ao meu lado, estaria ainda mais ferida. As inúmeras orações. O soro e os medicamentos. O silêncio em resposta às minhas perguntas. O escorrer lento da noite e da madrugada. O amanhecer e o retorno dos filhos e de minha irmã. Os lábios e os olhos da dor e a notícia de que havia sido atendida ainda sobre a pista e não resistira. O choro conjunto da perda.
Depois o inconformismo e a revolta.
Ela ainda estaria viva e ao meu lado se eu, dependente de sua companhia, não a tivesse levado comigo ou se não tivéssemos parado para quitar dívidas ou se tivéssemos parado pra tomar um sorvete, se eu tivesse andado mais rápido ou mais devagar.
Porque, se mais velho, os danos maiores ao veículo não ocorreram do meu lado? Porque não eu, se hipertenso e com problemas cardíacos? Porque não eu, se ela saberia muito melhor o que fazer depois? Se saberia onde estão guardadas todas as coisas e eu não sei. Se cuidaria melhor dos filhos, das noras, dos netos, das plantas, das roupas e da casa, do que eu. Se lembrava mais dos aniversários e das contas do que eu. Se era mais amável, mais tolerante e paciente que eu. Porque não eu?
Porque nossos pais e nossos irmãos, já falecidos, aceitaram sem nenhuma contestação, as súplicas e orações que lhes fiz, durante toda a noite e madrugada, para que intercedessem por mim a fim de que ela me fosse devolvida sã e salva, se já a tinham ao seu lado e eu ainda não sabia?
Depois, parentes e amigos falaram dos desígnios, do destino e do cumprimento de tarefas já realizadas. E eu que entendo pouco das coisas do mundo e dos homens e menos ainda das coisas dos céus e de Deus, só fico com a imensa saudade e com a certeza da absoluta inutilidade dos “ses” que tomaram de assalto a minha cabeça, ainda tonta, todos esses dias.