Hoje acordei com a cara do dia. Com o jeito do meio ambiente. Todo nublado, sem sol, sem o calor das manhãs. Acordei chocho, como o dia.
Bom era ser pássaro. Não estar nem aí. Esperar o nascer ou renascer da manhã e voar. Bater as asas ou planar. Esvoaçar. Por prazer ou por necessidade. Desta nuvem àquela, revoar. Pra buscar alimento, água, uma pousada que não aquela da noite. Saber que apesar de não visível o sol está presente. Abrir as asas para espantar o frio da madrugada. Deixar as penas sentirem a claridade do dia.
Bom talvez fosse voar. Procurar fruta madura. Sentir cores, cheiros e sabores. Independentemente do horário de verão. Simplesmente voar, olhar as coisas do alto. Pousar e voltar a voar. Comer, beber, tomar banho em poça de água. Espargir-se na areia. Cantar. Dar uma cagadela, acerte a cabeça de quem acertar.
Bom era voar como pássaro.
Bom era ser contente. Aproveitar a manhã, esta mesma manhã. Chocha ou não, uma manhã. Viver integralmente esta, como foi a de ontem. Como será a de amanhã.
segunda-feira, 18 de outubro de 2010
domingo, 17 de outubro de 2010
CHUVAS DE VERÃO
PODEMOS SER AMIGOS SIMPLESMENTE, disse-me ela, como se a amizade fosse algo “simplesmente”.
A amizade pressupõe dedicação, entrega, carinho, respeito, tanto quanto o amor ou o romance. Necessitam de opiniões divergentes, concordâncias, discussão. Nenhum dos dois sobrevive sem questionamentos. A submissão constante à opinião do outro é coisa para fieis e santos. Questionar existe desde quando o criador inventa a criatura. Não existe o paraíso para ambos. Vale para os deuses, vale para os artistas. A obra questiona permanentemente o autor. Porque seria diferente para simples seres humanos que buscam o melhor relacionamento? Porque seria diferente para o amor e para a amizade?
Ambos exigem cumplicidade. Ambos exigem conivência e muito trabalho. Nada é tão pouco “simplesmente” quanto a amizade e o amor. Se inexistentes num, o serão, com certeza, na outra.
COISAS DO AMOR NUNCA MAIS, ficou assim como que implícito aos meus olhos que percorriam mais uma vez suas pernas.
AMORES DO PASSADO E DO PRESENTE REPETEM VELHOS TEMAS TÃO BANAIS. Coisas passageiras ou não tão. Coisas tão próprias do amor e da amizade. Temas tão velhos quanto a existência do mundo.
RESSENTIMENTOS PASSAM COMO O VENTO, SÃO COISAS DE MOMENTO, SÃO CHUVAS DE VERÃO. São passageiros os desencontros, assim como as tempestades. O sol do próximo amanhecer seca os caminhos e nossos pés não se sujam mais com a lama de ontem à noite. As lágrimas não formam poças e muito mais rápido do que estas, acabam secando e dando lugar ao riso. Passam como o tempo. Basta dar a ele o que lhe é intrínseco. Dar tempo ao tempo.
TRAZER UMA AFLIÇÃO DENTRO DO PEITO É DAR VIDA A UM DEFEITO QUE SE EXTINGUE COM A RAZÃO. Nem amor e nem amizade dão vida, ou importância, a defeitos. Convivem com eles e os superam. A aflição se vai com o próximo sorriso, com o próximo carinho. Aflição e defeitos existem para serem superados. Algumas vezes não se removem todas as pedras do caminho mas estas acabam sendo contornadas e passam a fazer parte e a embelezar a paisagem.
ESTRANHA NO MEU PEITO, ESTRANHA NA MINHA ALMA, AGORA EU TENHO CALMA. Ficar em paz consigo mesmo faz parte do depois. Depois das chuvas e trovoadas. Depois do vendaval que açoitou o bambuzal. Depois da cheia que fez vazar o rio. Depois da tempestade, melhorou o tempo. Depois os pássaros continuaram voando seguindo as nuvens brancas numa direção e noutra. Depois virá o desassossego. Não fosse assim e não seria calma, seria rotina.
NÃO TE DESEJO MAIS é como se me dissesse o corpo tantas vezes acariciado quando o contemplei uma última vez. Não é o que disse o meu, mas por via das dúvidas acrescentaria ao mais o assim.
PODEMOS SER AMIGOS SIMPLESMENTE, AMIGOS, SIMPLESMENTE, NADA MAIS. O Caetano continuou cantarolando no rádio do carro a música do Fernando Lobo que foi feita pouco antes de eu nascer. Eta mundo velho sem porteira pensei eu ao avistar ao longe a silhueta escura dos montes e serras contra o azul escuro daquela noite. Montanhas e elevações que sempre estiveram ali e que vão continuar depois de mim e depois que todas as rádios deixem de tocar a música. Mesmo nesse tempo continuarão existindo o amor, a amizade e as chuvas de verão.
A amizade pressupõe dedicação, entrega, carinho, respeito, tanto quanto o amor ou o romance. Necessitam de opiniões divergentes, concordâncias, discussão. Nenhum dos dois sobrevive sem questionamentos. A submissão constante à opinião do outro é coisa para fieis e santos. Questionar existe desde quando o criador inventa a criatura. Não existe o paraíso para ambos. Vale para os deuses, vale para os artistas. A obra questiona permanentemente o autor. Porque seria diferente para simples seres humanos que buscam o melhor relacionamento? Porque seria diferente para o amor e para a amizade?
Ambos exigem cumplicidade. Ambos exigem conivência e muito trabalho. Nada é tão pouco “simplesmente” quanto a amizade e o amor. Se inexistentes num, o serão, com certeza, na outra.
COISAS DO AMOR NUNCA MAIS, ficou assim como que implícito aos meus olhos que percorriam mais uma vez suas pernas.
AMORES DO PASSADO E DO PRESENTE REPETEM VELHOS TEMAS TÃO BANAIS. Coisas passageiras ou não tão. Coisas tão próprias do amor e da amizade. Temas tão velhos quanto a existência do mundo.
RESSENTIMENTOS PASSAM COMO O VENTO, SÃO COISAS DE MOMENTO, SÃO CHUVAS DE VERÃO. São passageiros os desencontros, assim como as tempestades. O sol do próximo amanhecer seca os caminhos e nossos pés não se sujam mais com a lama de ontem à noite. As lágrimas não formam poças e muito mais rápido do que estas, acabam secando e dando lugar ao riso. Passam como o tempo. Basta dar a ele o que lhe é intrínseco. Dar tempo ao tempo.
TRAZER UMA AFLIÇÃO DENTRO DO PEITO É DAR VIDA A UM DEFEITO QUE SE EXTINGUE COM A RAZÃO. Nem amor e nem amizade dão vida, ou importância, a defeitos. Convivem com eles e os superam. A aflição se vai com o próximo sorriso, com o próximo carinho. Aflição e defeitos existem para serem superados. Algumas vezes não se removem todas as pedras do caminho mas estas acabam sendo contornadas e passam a fazer parte e a embelezar a paisagem.
ESTRANHA NO MEU PEITO, ESTRANHA NA MINHA ALMA, AGORA EU TENHO CALMA. Ficar em paz consigo mesmo faz parte do depois. Depois das chuvas e trovoadas. Depois do vendaval que açoitou o bambuzal. Depois da cheia que fez vazar o rio. Depois da tempestade, melhorou o tempo. Depois os pássaros continuaram voando seguindo as nuvens brancas numa direção e noutra. Depois virá o desassossego. Não fosse assim e não seria calma, seria rotina.
NÃO TE DESEJO MAIS é como se me dissesse o corpo tantas vezes acariciado quando o contemplei uma última vez. Não é o que disse o meu, mas por via das dúvidas acrescentaria ao mais o assim.
PODEMOS SER AMIGOS SIMPLESMENTE, AMIGOS, SIMPLESMENTE, NADA MAIS. O Caetano continuou cantarolando no rádio do carro a música do Fernando Lobo que foi feita pouco antes de eu nascer. Eta mundo velho sem porteira pensei eu ao avistar ao longe a silhueta escura dos montes e serras contra o azul escuro daquela noite. Montanhas e elevações que sempre estiveram ali e que vão continuar depois de mim e depois que todas as rádios deixem de tocar a música. Mesmo nesse tempo continuarão existindo o amor, a amizade e as chuvas de verão.
sábado, 16 de outubro de 2010
O amor e o churrasco
Nada mais primitivo que o amor e o churrasco.
Ainda que elas apareçam vez ou outra, não são as labaredas que devem prevalecer. Um e outro só existem quando acompanhados do calor das brasas.
Pode ser que precisem de uma chama inicial para dar início ao processo, mas o fogo contínuo e direto queimaria as carnes e extinguiria rapidamente o combustível.
No churrasco, normalmente utilizo um maço de ervas com salsinha, manjericão e outras que tenha à mão para “benzer” as carnes quando o fogo se levanta. A água, com um pouco de sal, acaba respingando sobre o carvão e as chamas voltam a ficar sob controle. Não se pode “benzer” demais sob pena de apagar o fogo nem de menos para não carbonizar o assado.
Também no amor o que se deve buscar é manter a brasa acesa. Quando a labareda se levanta cada qual busca o maço e o líquido para manter tudo na devida temperatura. É por isso, talvez, que após o sexo os corpos dêem uma relaxada tal qual a verificada, após a benzeção, nas churrascadas.
Da mesma forma que não devem prevalecer as chamas, não deve chegar ao ponto de somente existirem cinzas. De igual modo, como num momento e outro aparecem as labaredas mais altas, vez ou outra aparecem as cinzas. Elas se retiram mandando-se ar ao braseiro, para que não fique sufocado, sem respirar .
O grande segredo é, provavelmente, manter limpo e rubro o carvão. É isso que não é simples. Isso é que é cansativo. Isso é que faz desistirem os mais apressados. Aqueles que preferem ir às churrascarias
Quando se quer um churrasco duradouro, que dure tanto quanto deve durar a festa, deve-se cuidar do braseiro. Assoprando de vez em quando, colocando mais um pedaço de carvão, benzendo a chama com a salmoura. Não é fácil. Não é a toa que, não são todos os convivas, bons churrasqueiros. Não é por outra razão que a prática é difícil e trabalhosa.
Por outro lado, a milenar existência de um e de outro, demonstra que todos podem se tornar amantes ou churrasqueiros. Basta cuidado. Basta persistência. Basta dedicação para que a coisa não desande.
Não bastam serem boas as carnes. É preciso tempero. Normalmente o sal basta. Não deve ser por coincidência que o sal existe na saliva dos beijos e no suor do antes, do durante e do depois do amor. É preciso que o carvão seja de boa qualidade e seco. Carvão úmido não queima e quando o faz produz muita fumaça. Esta acaba fazendo chorar àqueles mais próximos.
Quando se abana a churrasqueira e mais nada acontece, o fogo apagou-se totalmente.
Não cabe apontar culpados. A festa simplesmente acabou.
Não se faz churrasco ou amor quando se deixa esfriar o necessário calor. Não se pode fazê-los com cinzas, com braseiros extintos.
Ainda que elas apareçam vez ou outra, não são as labaredas que devem prevalecer. Um e outro só existem quando acompanhados do calor das brasas.
Pode ser que precisem de uma chama inicial para dar início ao processo, mas o fogo contínuo e direto queimaria as carnes e extinguiria rapidamente o combustível.
No churrasco, normalmente utilizo um maço de ervas com salsinha, manjericão e outras que tenha à mão para “benzer” as carnes quando o fogo se levanta. A água, com um pouco de sal, acaba respingando sobre o carvão e as chamas voltam a ficar sob controle. Não se pode “benzer” demais sob pena de apagar o fogo nem de menos para não carbonizar o assado.
Também no amor o que se deve buscar é manter a brasa acesa. Quando a labareda se levanta cada qual busca o maço e o líquido para manter tudo na devida temperatura. É por isso, talvez, que após o sexo os corpos dêem uma relaxada tal qual a verificada, após a benzeção, nas churrascadas.
Da mesma forma que não devem prevalecer as chamas, não deve chegar ao ponto de somente existirem cinzas. De igual modo, como num momento e outro aparecem as labaredas mais altas, vez ou outra aparecem as cinzas. Elas se retiram mandando-se ar ao braseiro, para que não fique sufocado, sem respirar .
O grande segredo é, provavelmente, manter limpo e rubro o carvão. É isso que não é simples. Isso é que é cansativo. Isso é que faz desistirem os mais apressados. Aqueles que preferem ir às churrascarias
Quando se quer um churrasco duradouro, que dure tanto quanto deve durar a festa, deve-se cuidar do braseiro. Assoprando de vez em quando, colocando mais um pedaço de carvão, benzendo a chama com a salmoura. Não é fácil. Não é a toa que, não são todos os convivas, bons churrasqueiros. Não é por outra razão que a prática é difícil e trabalhosa.
Por outro lado, a milenar existência de um e de outro, demonstra que todos podem se tornar amantes ou churrasqueiros. Basta cuidado. Basta persistência. Basta dedicação para que a coisa não desande.
Não bastam serem boas as carnes. É preciso tempero. Normalmente o sal basta. Não deve ser por coincidência que o sal existe na saliva dos beijos e no suor do antes, do durante e do depois do amor. É preciso que o carvão seja de boa qualidade e seco. Carvão úmido não queima e quando o faz produz muita fumaça. Esta acaba fazendo chorar àqueles mais próximos.
Quando se abana a churrasqueira e mais nada acontece, o fogo apagou-se totalmente.
Não cabe apontar culpados. A festa simplesmente acabou.
Não se faz churrasco ou amor quando se deixa esfriar o necessário calor. Não se pode fazê-los com cinzas, com braseiros extintos.
domingo, 10 de outubro de 2010
Seixos e raízes

Destas caminhadas por entre as Astrapéias (Dombeya Wallichii) é que me veio a idéia das gravuras.
Neste caminho coalhado de seixos colocados para minorar a lama da estradinha me vem a lembrança das caminhadas que por aqui fizeram meu pai, vindo da Viseu de Portugal, minha mãe, meus irmãos e minha mulher, que se foram.
Estas pedras claras retiradas dos rios como subprodutos da areia extraída pelos areeiros. A compreensão de que se lá, no leito dos rios, fossem deixadas transmudar-se-iam também, sabe-se lá quando, em minúsculos grãos de areia. A reminiscência de cada uma dessas pedras esbranquiçadas desde os primórdios quando ainda eram gigantescas. O rolar, o bater-se umas contra as outras, as intempéries, os ventos e a força da água as transformaram nesses pequenos seixos polidos de formas arredondadas que se podem ver agora, parcialmente enterrados na argila que já existia no caminho. Água mole em pedra dura.
As raízes das Astrapéias que aqui e ali afloram à superfície, não sei se em busca de ar, água ou calor. Centenas, milhares, delas cruzando-se e mergulhando novamente terra à dentro. As próprias Astrapéias que floridas com esses milhares de cachos de cor rósea, alimentam outras tantas abelhas e insetos de todas as espécies. Os beija-flores e os outros pássaros de todas as cores. A mágica dessas plantas. Nunca uma delas, ao menos aqui, nasceu de sementes. E não se fale em falta de polinização já que a todos os instantes, a busca do néctar e do pólem proporciona as fecundações.
Aqui o que as reproduz é a estaca de galho.
Como se a mesma planta trazida de Madagascar, há muitos anos, fosse ganhando galhos e raízes em outros lugares. Como se aqui pudéssemos falar em clones. Um pequeno pedaço da mais antiga que para cá foi trazida reproduzindo-se aos milhares na impressionante mágica da vida. Como se cada pedaço de nós mesmos pudesse reproduzir outro ser semelhante e, depois, mais outro e mais outro.
Estranhas disparidades. Como vida e morte. Como se as pessoas que por aqui passaram fossem desaparecendo tornando-se apenas minúsculos grãos de areia da memória, lembranças indo e vindo ao sabor das chuvas e dos ventos. Como se as pessoas que por aqui passaram fossem se reproduzindo fincando aqui e ali raízes e descendentes.
A vida é uma coleção inesgotável de Astrapéias e seixos.
Das solidões solitárias ou acompanhadas.
Existe a solidão de quem está só porque perdeu a companhia e, durante algum, ou muito tempo, fica como que a pairar no ar, sem saber, ou sem ter, onde apoiar os pés.
Existe a solidão de quem supõe estar acompanhado. Aquele que se encontra andando numa avenida muito movimentada, ou almoçando num restaurante lotado, ou pendurado num transporte coletivo abarrotado de pessoas. Mesmo estando rodeado de milhares, centenas ou dezenas de pessoas ainda assim está só com seus próprios pensamentos.
Boas idéias acabam aparecendo nestes últimos momentos, quando você está, como se dizia no tempo do onça, dando tratos à bola.
Péssimas idéias também comparecem, apesar de não convidadas, nestas horas. É aí que bate a angustia, a depressão e aquele sentimento de abandono que já deve ter te alcançado dentro de um carro na avenida Paulista, no momento de rush. Até mesmo o aparelho de som ligado parece estar dando o fundo musical para a tua solidão. Não adianta trocar para um rock pauleira. Alguns solos de guitarra ou gritos lancinantes te puxam de volta como se estivesse amarrado com um potente elástico.
Há alguns que tentam espantar a tal, puxando conversa com o ausente/presente ao lado: Foda o trânsito hein? Com esse sal que puseram no arroz, não tem pressão alta que agüente, não é não? Geralmente essas e outras bobagens não resolvem. O desacompanhante ao lado pode estar lá com os seus próprios problemas ou estar no meio da solução de uma fórmula que dê fim ao cancro mole ou à gonorréia e vai ficar muito injuriado, o que pode fazer com que aumentem os seus problemas por causa de uma ofensa inesperada.
As crianças resolviam esses problemas criando amigos imaginários. Era comum, acho que ainda é, ver crianças conversando e até mesmo discutindo com esses amigos que só existem nas suas mentes.
Se as suas companhias não estão resolvendo o seu problema de sentir-se só sobre toda essa esfera que habitamos, crie um amigo ou amiga imaginária. Fale com eles, gargalhe da piada que lhe contar, vá mostrar-lhe o parque. Chore da desgraça que ele ou ela lhe contar. Afinal essa dor pretensamente imaginária vai ser igual à sua.
Não se importe com as pessoas aparentemente próximas fisicamente. Dane-se quem estiver olhando ou comentando. Não se envergonhe. No final das contas essas pessoas não são mesmo suas amigas.
Existe a solidão de quem supõe estar acompanhado. Aquele que se encontra andando numa avenida muito movimentada, ou almoçando num restaurante lotado, ou pendurado num transporte coletivo abarrotado de pessoas. Mesmo estando rodeado de milhares, centenas ou dezenas de pessoas ainda assim está só com seus próprios pensamentos.
Boas idéias acabam aparecendo nestes últimos momentos, quando você está, como se dizia no tempo do onça, dando tratos à bola.
Péssimas idéias também comparecem, apesar de não convidadas, nestas horas. É aí que bate a angustia, a depressão e aquele sentimento de abandono que já deve ter te alcançado dentro de um carro na avenida Paulista, no momento de rush. Até mesmo o aparelho de som ligado parece estar dando o fundo musical para a tua solidão. Não adianta trocar para um rock pauleira. Alguns solos de guitarra ou gritos lancinantes te puxam de volta como se estivesse amarrado com um potente elástico.
Há alguns que tentam espantar a tal, puxando conversa com o ausente/presente ao lado: Foda o trânsito hein? Com esse sal que puseram no arroz, não tem pressão alta que agüente, não é não? Geralmente essas e outras bobagens não resolvem. O desacompanhante ao lado pode estar lá com os seus próprios problemas ou estar no meio da solução de uma fórmula que dê fim ao cancro mole ou à gonorréia e vai ficar muito injuriado, o que pode fazer com que aumentem os seus problemas por causa de uma ofensa inesperada.
As crianças resolviam esses problemas criando amigos imaginários. Era comum, acho que ainda é, ver crianças conversando e até mesmo discutindo com esses amigos que só existem nas suas mentes.
Se as suas companhias não estão resolvendo o seu problema de sentir-se só sobre toda essa esfera que habitamos, crie um amigo ou amiga imaginária. Fale com eles, gargalhe da piada que lhe contar, vá mostrar-lhe o parque. Chore da desgraça que ele ou ela lhe contar. Afinal essa dor pretensamente imaginária vai ser igual à sua.
Não se importe com as pessoas aparentemente próximas fisicamente. Dane-se quem estiver olhando ou comentando. Não se envergonhe. No final das contas essas pessoas não são mesmo suas amigas.
sexta-feira, 6 de agosto de 2010
Sobre meu pai, injeções e punhaladas.
Meu pai aplicava injeções.
Não era médico, enfermeiro ou farmacêutico e não sei dizer onde e como adquirira tal habilidade.
Alguns dirão que espetar uma agulha num repolho, numa melancia ou numa bunda não requer assim tanta prática ou habilidade. Assino embaixo! O que fazia dele um mestre era o paciente jamais sentir qualquer dor, por menor que fosse. Obviamente refiro-me aos donos e donas das bundas ou músculos e não aos repolhos ou melancias.
Todos nós de casa, os parentes mais próximos e os vizinhos sempre o procuravam quando precisavam receber, por essa via, algum medicamento. Apesar de saber fazê-lo, por precaução e zelo, não aplicava injeções intravenosas.
Lembro-me de uma das vezes em que aplicou injeções em minha avó, mãe dele, quando ela lhe perguntou se ainda demoraria a picada ao que ele respondeu-lhe que já tinha terminado.
A mágica, segundo ele, consistia em desferir com a ponta de um dedo leves batidas sobre o ponto da aplicação. Com isso ele sentia se o músculo estava ou não retesado. Quando o sentia relaxado substituía a batida do dedo pela introdução da agulha e a injeção propriamente dita. Imediatamente em seguida voltava a desferir as ritmadas batidas com o dedo, por mais alguns instantes, o que segundo ele ajudava também a espalhar o remédio. Tudo transcorria numa única seqüência, como numa bem ensaiada apresentação. Nós os seus pacientes, e esse foi o caso de minha avó, quase nunca distinguíamos o dedo da agulha. Era como se ele, inquebrantável amante da verdade, da honestidade e da franqueza, se permitisse uma daquelas enganações benéficas intrínsecas aos mágicos ou ilusionistas.
É possível que facadas ou punhaladas, nada benfazejas, se precedidas dos tradicionais e habituais tapinhas nas costas surtam os mesmos efeitos. Aqui como lá, me fica a impressão de que as pancadinhas anteriores como que amortecem a área do ferimento, mas são ambas, senão apenas as posteriores que “distraem” a dor.
No caso das punhaladas nas costas, parece-me que o que mais dói não é o momento do golpe, a ponta do punhal, tal qual a ponta da agulha, penetrando na carne. O dolorido é o pós-trauma, a ferida aberta, a convalescença, a incerteza de recobrar a integridade.
Por mais absurdo que pareça, o que minoraria a dor seriam as pancadinhas sobre a região do corte. Minúsculas dores distraindo a dor maior. O cérebro recebendo afagos (ou as minúsculas dores se comparadas com a dor maior) no entorno da lesão profunda.
Como se não conseguisse ver ou encontrar o joio entre os amarelos montes de trigo.
Meu pai (homem que nunca apunhalou quem quer que seja), sua benção!
Não era médico, enfermeiro ou farmacêutico e não sei dizer onde e como adquirira tal habilidade.
Alguns dirão que espetar uma agulha num repolho, numa melancia ou numa bunda não requer assim tanta prática ou habilidade. Assino embaixo! O que fazia dele um mestre era o paciente jamais sentir qualquer dor, por menor que fosse. Obviamente refiro-me aos donos e donas das bundas ou músculos e não aos repolhos ou melancias.
Todos nós de casa, os parentes mais próximos e os vizinhos sempre o procuravam quando precisavam receber, por essa via, algum medicamento. Apesar de saber fazê-lo, por precaução e zelo, não aplicava injeções intravenosas.
Lembro-me de uma das vezes em que aplicou injeções em minha avó, mãe dele, quando ela lhe perguntou se ainda demoraria a picada ao que ele respondeu-lhe que já tinha terminado.
A mágica, segundo ele, consistia em desferir com a ponta de um dedo leves batidas sobre o ponto da aplicação. Com isso ele sentia se o músculo estava ou não retesado. Quando o sentia relaxado substituía a batida do dedo pela introdução da agulha e a injeção propriamente dita. Imediatamente em seguida voltava a desferir as ritmadas batidas com o dedo, por mais alguns instantes, o que segundo ele ajudava também a espalhar o remédio. Tudo transcorria numa única seqüência, como numa bem ensaiada apresentação. Nós os seus pacientes, e esse foi o caso de minha avó, quase nunca distinguíamos o dedo da agulha. Era como se ele, inquebrantável amante da verdade, da honestidade e da franqueza, se permitisse uma daquelas enganações benéficas intrínsecas aos mágicos ou ilusionistas.
É possível que facadas ou punhaladas, nada benfazejas, se precedidas dos tradicionais e habituais tapinhas nas costas surtam os mesmos efeitos. Aqui como lá, me fica a impressão de que as pancadinhas anteriores como que amortecem a área do ferimento, mas são ambas, senão apenas as posteriores que “distraem” a dor.
No caso das punhaladas nas costas, parece-me que o que mais dói não é o momento do golpe, a ponta do punhal, tal qual a ponta da agulha, penetrando na carne. O dolorido é o pós-trauma, a ferida aberta, a convalescença, a incerteza de recobrar a integridade.
Por mais absurdo que pareça, o que minoraria a dor seriam as pancadinhas sobre a região do corte. Minúsculas dores distraindo a dor maior. O cérebro recebendo afagos (ou as minúsculas dores se comparadas com a dor maior) no entorno da lesão profunda.
Como se não conseguisse ver ou encontrar o joio entre os amarelos montes de trigo.
Meu pai (homem que nunca apunhalou quem quer que seja), sua benção!
terça-feira, 20 de julho de 2010
De madames, cachorros, gramados e cagadas.
Juro que é verdade! Há algum tempo assisti num dos canais de televisão uma madame reclamando que havia gente demais cuidando de crianças abandonadas e muito pouca gente cuidando de cachorros abandonados. Ao que me recordo, movia-se num carrão importado e transportava sacos de ração para os abandonados de quatro pernas. Nada contra dar-se um destino digno e adequado aos cães e gatos (ou quaisquer outros animais) abandonados. O que me parece indiscutível é que nunca haverá gente demais para cuidar de crianças abandonadas. Se houvesse uma só, ainda assim seria responsabilidade de todo mundo.
Já escrevi aqui a respeito da metodologia utilizada para cortar a grama de um gramado, com uma roçadeira motorizada, para quem, como eu, tem cães soltos. Quem inventou a expressão “espalhar merda”, por certo tinha cães soltos, um gramado e uma roçadeira motorizada. Ditos cães tem o péssimo hábito de defecar sobre a viçosa grama. Tem mais, nunca, saliento, nunca, voltam a cagar sobre o montinho anterior, o que poderia facilitar o trabalho de limpeza. Mais ainda, a viçosa grama, se não socorrida em tempo vai a óbito debaixo daquele monturo de porcaria. Engana-se redondamente quem imagina que “aquilo” possa servir de adubo.
Para quem não é dado a criar o referido quadrúpede, é necessário esclarecer que o tamanho do monturo é diretamente proporcional ao tamanho do cachorro e, por conseqüência, do orifício expelidor. É preciso dizer também que os cães sabem de antemão por onde deveremos passar e, além disso, sabem se estaremos de sapatos ou pneus novos. Quanto mais reentrâncias houver no solado do sapato ou sulcos nos pneus, mais aderentes estarão os dejetos. Sabem com a devida antecedência quando deveremos sair ou voltar para casa. Programam-se para depositar os toletes pouco antes de voltarmos. Sabem que se o fizessem antes de sairmos, no caso dos carros, os restos iriam sendo atirados pelas ruas e estradas. Como a deposição ocorre pouco antes do nosso retorno, geralmente no escuro, acabamos carregando a pasta e o respectivo cheiro para dentro de nossas casas ou garagens. Para distrair ainda mais nossa atenção, quando chegamos, latem, uivam e abanam os rabos com o único e firme propósito de fazer com que desviemos nosso olhar do exato ponto onde se deu o depósito.
Deveria ser proibida a criação de cachorros grandes. O padrão deveria ser o Chihuahua. Cães maiores deveriam ser mantidos nos circos ou zoológicos para que pudessem ser apreciados à distância, assim como os elefantes ou hipopótamos. Afinal, quem cuida de remover a bosta desses bichos, tira de letra a de qualquer cachorro. O critério para ser mantido nas residências poderia ser também o volume dos dejetos diários. Nada maior do que o tamanho de um quarto de uma salsicha comum e obrigatoriamente seco. O governo deveria proporcionar cursos para que todos os cachorros passassem a defecar numa espécie de latrina com a obrigatoriedade de dar a descarga. Até estarem devidamente instruídos ficariam internados em escolas sob a responsabilidade de um ministério ou secretaria criada para tal finalidade. Todas as despesas daí decorrentes correriam às expensas de fabricantes de rações e proprietários de lojas de produtos para cães.
Hoje, quando fazia o humilhante trabalho da coleta dos toletes amolecidos pelas chuvas, lembrei-me da referida madame. Desejei que estivesse aqui. Ia obrigá-la a engolir, no mínimo, as próprias palavras.
Já escrevi aqui a respeito da metodologia utilizada para cortar a grama de um gramado, com uma roçadeira motorizada, para quem, como eu, tem cães soltos. Quem inventou a expressão “espalhar merda”, por certo tinha cães soltos, um gramado e uma roçadeira motorizada. Ditos cães tem o péssimo hábito de defecar sobre a viçosa grama. Tem mais, nunca, saliento, nunca, voltam a cagar sobre o montinho anterior, o que poderia facilitar o trabalho de limpeza. Mais ainda, a viçosa grama, se não socorrida em tempo vai a óbito debaixo daquele monturo de porcaria. Engana-se redondamente quem imagina que “aquilo” possa servir de adubo.
Para quem não é dado a criar o referido quadrúpede, é necessário esclarecer que o tamanho do monturo é diretamente proporcional ao tamanho do cachorro e, por conseqüência, do orifício expelidor. É preciso dizer também que os cães sabem de antemão por onde deveremos passar e, além disso, sabem se estaremos de sapatos ou pneus novos. Quanto mais reentrâncias houver no solado do sapato ou sulcos nos pneus, mais aderentes estarão os dejetos. Sabem com a devida antecedência quando deveremos sair ou voltar para casa. Programam-se para depositar os toletes pouco antes de voltarmos. Sabem que se o fizessem antes de sairmos, no caso dos carros, os restos iriam sendo atirados pelas ruas e estradas. Como a deposição ocorre pouco antes do nosso retorno, geralmente no escuro, acabamos carregando a pasta e o respectivo cheiro para dentro de nossas casas ou garagens. Para distrair ainda mais nossa atenção, quando chegamos, latem, uivam e abanam os rabos com o único e firme propósito de fazer com que desviemos nosso olhar do exato ponto onde se deu o depósito.
Deveria ser proibida a criação de cachorros grandes. O padrão deveria ser o Chihuahua. Cães maiores deveriam ser mantidos nos circos ou zoológicos para que pudessem ser apreciados à distância, assim como os elefantes ou hipopótamos. Afinal, quem cuida de remover a bosta desses bichos, tira de letra a de qualquer cachorro. O critério para ser mantido nas residências poderia ser também o volume dos dejetos diários. Nada maior do que o tamanho de um quarto de uma salsicha comum e obrigatoriamente seco. O governo deveria proporcionar cursos para que todos os cachorros passassem a defecar numa espécie de latrina com a obrigatoriedade de dar a descarga. Até estarem devidamente instruídos ficariam internados em escolas sob a responsabilidade de um ministério ou secretaria criada para tal finalidade. Todas as despesas daí decorrentes correriam às expensas de fabricantes de rações e proprietários de lojas de produtos para cães.
Hoje, quando fazia o humilhante trabalho da coleta dos toletes amolecidos pelas chuvas, lembrei-me da referida madame. Desejei que estivesse aqui. Ia obrigá-la a engolir, no mínimo, as próprias palavras.
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