Em seguida, as próprias flores, os insetos, as aves, o céu, o sol demorando a esquentar e a solidão do sítio, sem a presença física dela, é que me deram a noção da nossa insignificância.
Todo início de junho é assim. Basta esfriar o tempo e as flores voltam. E voltam as abelhas, as formigas, os pássaros, o néctar, o pólen e o perfume. As gotas de néctar que caem ao mais leve chacoalhar das flores, não são lágrimas adocicadas que se contrapõe às minhas, salgadas. São, como há milhares de anos, gotas de néctar.
Não importa quão grande seja a nossa dor e o nosso sofrimento. O universo continua em movimento. Nosso pequeno planeta continua girando em torno do sol. Nosso país, nosso estado e nossa cidade continuam como se nada tivesse acontecido. Nossas ruas, nossos amigos e nossos parentes, mais próximos ou mais distantes, após o primeiro direto de esquerda, se agarram nas cordas ou recebem o auxilio do árbitro e continuam lutando por um ou mais rounds, até que a própria luta, aquela que travam pessoalmente, se encerre.
O que marca, o que vale, pra quem partiu é o que fizemos. O pequeno gesto, o pequeno carinho, uma frase de agradecimento ou de apoio. Depois talvez valham as orações e as lembranças. Para os que ficam valem as recordações e as saudades.
Quase sempre eu apanhava a primeira flor de astrapéia rosa que aparecia e a entregava a ela. Ela agradecia, me beijava e a colocava num copo com água.
Este ano fiz a mesma coisa. Coloquei a flor num copo com água e ela já está secando.
Não houve agradecimento. Não houve beijo. Não houve a menor graça.
Nada do que eu faça consegue mover o universo para trás, minutos antes do acidente, no dia 20. Absolutamente nada. Absolutamente impotente e insignificante.


