Neste dia, há exatos dois anos, recebi uma mensagem no celular:
“Parabéns! Que Deus ilumine essa cabeça fantástica com tanta criatividade. Amo você demais. Beijos.”
Vinha da Márcia e estava endereçada ao “Meu Flávio” que é como o meu celular estava identificado no dela..
Cinco meses e meio depois veio o acidente e a sua partida. Depois veio outro celular que me foi dado pelo Fábio e a mensagem recebida se perdeu.
Há poucos dias, mexendo no celular que lhe pertencia, encontrei os votos na pasta das mensagens enviadas. Já havia feito créditos no telefone dela para não perder a linha na vã esperança de receber outras mensagens ou ligações, crença que o tempo vai desvanecendo.
Fazendo o balanço desse período fica a impressão de que também a criatividade se dissipou. Quase mais nada de gravuras ou pinturas saiu da tal cabeça fantástica como se a partida dela as tivesse levado consigo. Como se a cabeça ou a criatividade somente existissem com a presença dela ou o apoio e incentivo que dava. Sobraram uns poucos escritos nos quais exibo as tripas e as vísceras despudoradamente. Mesmo dos escritos, andam ausentes os contos e as poesias. Devo ter desaprendido. Isso me faz pensar que além da casa, das roupas e das comidas era ela quem cuidava da minha cabeça. Provavelmente, da mesma forma que era ela quem ordenava minha mesa de trabalho, a tranqüilidade e o estímulo que me dava ordenavam meus pensamentos.
Tenho dito e escrito que o casamento é convivência. É o dia a dia. É o esfregar dos corpos e dos espíritos a moldar as diferenças e as coincidências. A ausência dessas fricções, incluindo os atritos, não deixa criar relações duradouras. Como nas ausentes gravuras. A falta de incisões e de lixas não produz matrizes. E apenas as matrizes originam frutos.
Continuo aguardando que a oração, pedido ou voto feito por ela, ainda que exagerado, seja atendido. Ainda que não fantástica ou criativa, seja ao menos iluminada.
domingo, 5 de dezembro de 2010
quinta-feira, 2 de dezembro de 2010
Para Célia, André e Feto
Há cerca de dois meses um casal ficou grávido. Por uma daquelas coincidências da vida, há cerca de dois meses mais quarenta e quatro anos nascia uma menina que viria a ser a caçula de uma família cujo pai e mãe eram os meus. O filho mais velho, dos três moleques, cometeu um arremedo de poesia que falava da data do nascimento, quinze de setembro de sessenta e seis, e dos desejos de que a recém nascida fosse feliz.
Acho que a menina é feliz e está em vias de ter o mais desejado e mais feliz período da sua vida, em que pesem os enjôos e o peso adicional que terá de carregar pelos próximos quase sete meses.
Lembro-me de fazer dormir a tal menina, fazendo-lhe cafunés nos cabelos loiros e de pedir-lhe os mesmos cafunés recostando minha cabeça no seu colo pequeno. Fazê-la dormir rapidamente me fez acreditar que eu era um mago de criancinhas. Acreditei que as podia fazer parar de chorar e que as fazia sorrir quando adormeciam. Exercitei os mesmos poderes quando nasceram os meus três, hoje, marmanjos.
Ainda não se sabe o sexo da criança. Três filhos meus, três filhas do meu irmão do meio e dois filhos e duas filhas do mais novo, empate portanto, não permitem prognósticos quanto ao futuro rebento. O que espero e desejo ardentemente é que tanto a mãe quanto a criança transponham esse período com a mais absoluta saúde física e mental. Que eu ainda tenha suficiente saúde física e mental para fazê-la dormir sorrindo, por tantas vezes quantas fiz com a mãe. Talvez já não tenha capacidade para fazer poesias. Talvez já tenha suficiente discernimento para não cometer outra poesia.
No sábado, quando recebi a notícia e depois, pensei no quanto estariam felizes meus irmãos, meu pai, minha mãe e a Márcia se ainda estivessem aqui. Pensei na felicidade que sentiria a Márcia ao saber da novidade da mais do que cunhada, quase irmã, e no que sentiria minha mãe, lá no próximo mês de junho, com quase oitenta e sete anos, tendo nos braços a filha ou o filho, décimo primeiro neto, de sua única menina. Pensei no rosto de falso carrancudo de meu pai com os olhos marejados de lágrimas abençoando o pequeno ou pequena dizendo “Benza-te Deus”.
Pensei no coral de todos nós, presentes e ausentes, dizendo “Assim Seja, Amém”.
Acho que a menina é feliz e está em vias de ter o mais desejado e mais feliz período da sua vida, em que pesem os enjôos e o peso adicional que terá de carregar pelos próximos quase sete meses.
Lembro-me de fazer dormir a tal menina, fazendo-lhe cafunés nos cabelos loiros e de pedir-lhe os mesmos cafunés recostando minha cabeça no seu colo pequeno. Fazê-la dormir rapidamente me fez acreditar que eu era um mago de criancinhas. Acreditei que as podia fazer parar de chorar e que as fazia sorrir quando adormeciam. Exercitei os mesmos poderes quando nasceram os meus três, hoje, marmanjos.
Ainda não se sabe o sexo da criança. Três filhos meus, três filhas do meu irmão do meio e dois filhos e duas filhas do mais novo, empate portanto, não permitem prognósticos quanto ao futuro rebento. O que espero e desejo ardentemente é que tanto a mãe quanto a criança transponham esse período com a mais absoluta saúde física e mental. Que eu ainda tenha suficiente saúde física e mental para fazê-la dormir sorrindo, por tantas vezes quantas fiz com a mãe. Talvez já não tenha capacidade para fazer poesias. Talvez já tenha suficiente discernimento para não cometer outra poesia.
No sábado, quando recebi a notícia e depois, pensei no quanto estariam felizes meus irmãos, meu pai, minha mãe e a Márcia se ainda estivessem aqui. Pensei na felicidade que sentiria a Márcia ao saber da novidade da mais do que cunhada, quase irmã, e no que sentiria minha mãe, lá no próximo mês de junho, com quase oitenta e sete anos, tendo nos braços a filha ou o filho, décimo primeiro neto, de sua única menina. Pensei no rosto de falso carrancudo de meu pai com os olhos marejados de lágrimas abençoando o pequeno ou pequena dizendo “Benza-te Deus”.
Pensei no coral de todos nós, presentes e ausentes, dizendo “Assim Seja, Amém”.
quarta-feira, 1 de dezembro de 2010
Impotência
Não sei porque razões resolvo me meter na vida dos outros, quando não consigo cuidar sequer da minha. Pode ser coisa da idade, às vésperas de ficar ainda mais avançada, como se as idades não avançassem todos os minutos de todos os dias e esperassem um único dia do ano para saltar mais um degrau.
Não deve ser isso já que me intrometo há muitos e muitos anos tentando dizer para as pessoas coisas que não consigo dizer aos meus próprios ouvidos. Quem sabe seja mesmo a maldição da Deise, como já escrevi aqui há algum tempo, me rogando uma tristeza que não queria ter. Quem sabe seja a vontade de fazer mais felizes as pessoas que me cercam na tentativa de me apropriar de parte dessa felicidade. Quem sabe seja uma vocação inerente para enxerido. Coisa tipo faça o que eu digo e não o que eu faço.
De concreto, neste final de semana, uma outra menina, que eu não consigo esconder que adoro, voltou a derramar rios de lágrimas, que atingiram meus olhos, ao contar do fim ou interrupção de um romance. De novo espero que mais do que férias de uma relação que apenas engatinhava, se trate de um final de semana prolongado no qual cada um viaja para local distante. De novo espero que as farpas atiradas dissipem-se rapidamente e o amor de ambos reencontre os melhores dias como se encontravam ainda há pouco.
Novamente volto a desejar que as tolices ou bobagens ditas ou cometidas percam completamente a importância afim de que apenas o carinho que sentiam, um pelo outro, prevaleça.
Não sei se é orgulho ou intolerância. Se é falta de companheirismo ou solidariedade ou se é egoísmo. O que gostaria mesmo é que se tratasse apenas de uma pequena rachadura, daquelas que ocorrem em quase todas as casas até que o solo e as paredes se acomodem.
O que me faria feliz era não sentir esta impotência para resolver problemas, meus e dos outros. Era poder, num passe de mágica, transformar as lágrimas da minha moleca em sorrisos, a distância em presença, a tristeza em felicidade, o abandono em companhia. Criar barreiras para impedir que, mesmo por segundos, o amargor substituísse sua doçura. Poder fazer que a meiguice estampada no seu rosto ficasse ali tatuada para sempre e que os seus olhos só pudessem ficar vermelhos em razão da água salgada dos banhos de mar.
Não deve ser isso já que me intrometo há muitos e muitos anos tentando dizer para as pessoas coisas que não consigo dizer aos meus próprios ouvidos. Quem sabe seja mesmo a maldição da Deise, como já escrevi aqui há algum tempo, me rogando uma tristeza que não queria ter. Quem sabe seja a vontade de fazer mais felizes as pessoas que me cercam na tentativa de me apropriar de parte dessa felicidade. Quem sabe seja uma vocação inerente para enxerido. Coisa tipo faça o que eu digo e não o que eu faço.
De concreto, neste final de semana, uma outra menina, que eu não consigo esconder que adoro, voltou a derramar rios de lágrimas, que atingiram meus olhos, ao contar do fim ou interrupção de um romance. De novo espero que mais do que férias de uma relação que apenas engatinhava, se trate de um final de semana prolongado no qual cada um viaja para local distante. De novo espero que as farpas atiradas dissipem-se rapidamente e o amor de ambos reencontre os melhores dias como se encontravam ainda há pouco.
Novamente volto a desejar que as tolices ou bobagens ditas ou cometidas percam completamente a importância afim de que apenas o carinho que sentiam, um pelo outro, prevaleça.
Não sei se é orgulho ou intolerância. Se é falta de companheirismo ou solidariedade ou se é egoísmo. O que gostaria mesmo é que se tratasse apenas de uma pequena rachadura, daquelas que ocorrem em quase todas as casas até que o solo e as paredes se acomodem.
O que me faria feliz era não sentir esta impotência para resolver problemas, meus e dos outros. Era poder, num passe de mágica, transformar as lágrimas da minha moleca em sorrisos, a distância em presença, a tristeza em felicidade, o abandono em companhia. Criar barreiras para impedir que, mesmo por segundos, o amargor substituísse sua doçura. Poder fazer que a meiguice estampada no seu rosto ficasse ali tatuada para sempre e que os seus olhos só pudessem ficar vermelhos em razão da água salgada dos banhos de mar.
terça-feira, 23 de novembro de 2010
Amor e carne de porco.
Recebi ligação de uma menina. Chorava tanto do outro lado da linha que imaginei inundar meu celular. Descobrira que o marido a estava traindo, não uma ou duas vezes. Tiveram um início de discussão e ele apanhou suas coisas e saiu de casa deixando a mulher e o filho, com menos de um ano.
Ao que pude notar, suas lágrimas resolveram acompanhar o rapaz e estão saindo todas, um dia sim e o outro também, como se lhes estivesse faltando o espaço naqueles olhos novos.
Por mais que se tente compreender e consolar, e ela garantiu que se sentia melhor conversando comigo, não há como não ficar pensando no que acontece com as relações entre as pessoas.
Dois jovens se conhecem, se enamoram, passam a viver junto (o casamento tradicional parece ter saído de moda definitivamente), engravidam, colocam uma criança no mundo e, logo depois se separam, cabendo à mãe dar conta do pequeno.
Antigamente as comidas eram consumidas observando-se seu estado geral. Colocavam-se sementes (arroz, feijão, milho, etc) numa grande lata, retirava-se o ar do interior (geralmente com fogo) e vedava-se a tampa. Matavam-se porcos e as carnes eram guardadas em outras grandes latas cobertas e envoltas com a gordura derretida do próprio animal. Para que fossem consumidos, retiravam-se as porções necessárias, examinavam-se os alimentos e lacravam-se as latas novamente. Dava trabalho, gastava-se tempo, mas armazenados adequadamente duravam bastante tempo. Hoje se olha o carimbo do fabricante ou empacotador. Vencido ou próxima a data do vencimento, joga-se tudo fora. O mercado da esquina provê outros. Tudo muito cômodo.
Parece-me que as ligações humanas têm datas de vencimento, determinadas e carimbadas sei lá por quem. Não há nenhuma preocupação para evitar o caruncho ou o ranço. Não se faz esforço nenhum para que a lata ou as relações deixem de apodrecer. Não se colocam mais as sementes ao sol para evitar o bolor. Não se olha mais o estado das latas ou dos conteúdos. Não se faz manutenção preventiva.
A impressão que fica é que as relações eram mais bem cuidadas. Se alguma coisa não ia bem, conversava-se e se tentava descartar apenas o que estava errado ou estragado. Dava-se tempo ao tempo para se manter o que havia de bom no relacionamento. Se faziam acertos, se aparavam as arestas, para que o conjunto continuasse funcionando bem.
Hoje, diante da fartura de alimentos e de potenciais relações, rejeita-se todo o pacote. Com o pão amanhecido faziam-se torradas que eram saboreadas com patê. Agora o pão de ontem é jogado fora e vai-se em busca do pão fresco. Vivemos na era dos descartáveis, incluindo nós mesmos.
Ao que pude notar, suas lágrimas resolveram acompanhar o rapaz e estão saindo todas, um dia sim e o outro também, como se lhes estivesse faltando o espaço naqueles olhos novos.
Por mais que se tente compreender e consolar, e ela garantiu que se sentia melhor conversando comigo, não há como não ficar pensando no que acontece com as relações entre as pessoas.
Dois jovens se conhecem, se enamoram, passam a viver junto (o casamento tradicional parece ter saído de moda definitivamente), engravidam, colocam uma criança no mundo e, logo depois se separam, cabendo à mãe dar conta do pequeno.
Antigamente as comidas eram consumidas observando-se seu estado geral. Colocavam-se sementes (arroz, feijão, milho, etc) numa grande lata, retirava-se o ar do interior (geralmente com fogo) e vedava-se a tampa. Matavam-se porcos e as carnes eram guardadas em outras grandes latas cobertas e envoltas com a gordura derretida do próprio animal. Para que fossem consumidos, retiravam-se as porções necessárias, examinavam-se os alimentos e lacravam-se as latas novamente. Dava trabalho, gastava-se tempo, mas armazenados adequadamente duravam bastante tempo. Hoje se olha o carimbo do fabricante ou empacotador. Vencido ou próxima a data do vencimento, joga-se tudo fora. O mercado da esquina provê outros. Tudo muito cômodo.
Parece-me que as ligações humanas têm datas de vencimento, determinadas e carimbadas sei lá por quem. Não há nenhuma preocupação para evitar o caruncho ou o ranço. Não se faz esforço nenhum para que a lata ou as relações deixem de apodrecer. Não se colocam mais as sementes ao sol para evitar o bolor. Não se olha mais o estado das latas ou dos conteúdos. Não se faz manutenção preventiva.
A impressão que fica é que as relações eram mais bem cuidadas. Se alguma coisa não ia bem, conversava-se e se tentava descartar apenas o que estava errado ou estragado. Dava-se tempo ao tempo para se manter o que havia de bom no relacionamento. Se faziam acertos, se aparavam as arestas, para que o conjunto continuasse funcionando bem.
Hoje, diante da fartura de alimentos e de potenciais relações, rejeita-se todo o pacote. Com o pão amanhecido faziam-se torradas que eram saboreadas com patê. Agora o pão de ontem é jogado fora e vai-se em busca do pão fresco. Vivemos na era dos descartáveis, incluindo nós mesmos.
A ilógica lógica do Capitalismo
Zé Renato, meu irmão de andanças e caminhadas pela vida, perdeu o emprego. Nada de anormal nisso. Todo mundo perde o emprego, mais cedo ou mais tarde. Faz parte da lógica comercial. Faz parte do âmago do capitalismo. Troco você por alguém mais barato ou extingo a função quando meu lucro dá uma caída. Se meu passeio à Europa, ou a compra do meu automóvel novo, ou a aquisição de meu duplex na praia fica levemente ameaçada, demito alguém. Depois contrato um dedicado no lugar de dois que mandei embora. Que se danem as famílias dos demitidos. Que comam menos ou baixem os padrões, o que não pode baixar é o meu padrão e o dos meus familiares. Deixar meu Lulu sem veterinário, nem pensar.
Algumas pessoas entram no jogo sem se dar conta das regras. Patrão é patrão, empregado é empregado. Alguns sacrificam sua vida pessoal e sua felicidade em troca dos bons cargos e salários e se apropriam da pretensa importância dos cargos, como conquista pessoal inalienável. Bobagem. Todos somos substituíveis na ciranda do capital. Não importa o quanto de sua vida você deu. Quantas madrugadas perdeu ou o quanto deixou de acompanhar de perto sua família. Quando você menos esperar, vai chegar a hora da guilhotina e o frio do aço vai correr sua espinha quando a lâmina descer.
O irônico nisso tudo é que o amigo lidava com desempregados. Uma empresa internacional que enche as burras cuidando do desemprego de gente graúda de multinacionais. Aqueles que ajudaram o patrão a impor a ordem capitalista, para não passar à oposição são acariciados logo após o pé na bunda, durante algum tempo para que consigam nova colocação. Recebem o salário e/ou alguns benefícios durante mais algum tempo para que não percam a ilusão de que ter patrão é bom. Com os carinhos recebidos ficam mais propensos a portar os chicotes numa eventual nova empresa. Meu irmão cuidava de não deixar esmorecer a confiança do demitido em sua própria capacidade e a ajudá-lo a transpor as barreiras que se apresentassem.
Por ironia ou escárnio, foi demitido sem aviso e sem que a empresa lhe oferecesse o mesmo tipo de tratamento que dispensava aos outros. Por ironia do destino ou por escárnio, acabara de perder a mãe e de financiar um apartamento.
Otimista por escolha e convicção, dará a volta por cima. Por deferência e apreço o destino deu-lhe fé inquebrantável no ser humano e o apoio do ombro companheiro da Rosana. Com esses alicerces, com certeza levantará edifício muito mais sólido do que aquele onde lhe sugavam o sangue. Fraternais votos de que o Universo conspire a favor.
Algumas pessoas entram no jogo sem se dar conta das regras. Patrão é patrão, empregado é empregado. Alguns sacrificam sua vida pessoal e sua felicidade em troca dos bons cargos e salários e se apropriam da pretensa importância dos cargos, como conquista pessoal inalienável. Bobagem. Todos somos substituíveis na ciranda do capital. Não importa o quanto de sua vida você deu. Quantas madrugadas perdeu ou o quanto deixou de acompanhar de perto sua família. Quando você menos esperar, vai chegar a hora da guilhotina e o frio do aço vai correr sua espinha quando a lâmina descer.
O irônico nisso tudo é que o amigo lidava com desempregados. Uma empresa internacional que enche as burras cuidando do desemprego de gente graúda de multinacionais. Aqueles que ajudaram o patrão a impor a ordem capitalista, para não passar à oposição são acariciados logo após o pé na bunda, durante algum tempo para que consigam nova colocação. Recebem o salário e/ou alguns benefícios durante mais algum tempo para que não percam a ilusão de que ter patrão é bom. Com os carinhos recebidos ficam mais propensos a portar os chicotes numa eventual nova empresa. Meu irmão cuidava de não deixar esmorecer a confiança do demitido em sua própria capacidade e a ajudá-lo a transpor as barreiras que se apresentassem.
Por ironia ou escárnio, foi demitido sem aviso e sem que a empresa lhe oferecesse o mesmo tipo de tratamento que dispensava aos outros. Por ironia do destino ou por escárnio, acabara de perder a mãe e de financiar um apartamento.
Otimista por escolha e convicção, dará a volta por cima. Por deferência e apreço o destino deu-lhe fé inquebrantável no ser humano e o apoio do ombro companheiro da Rosana. Com esses alicerces, com certeza levantará edifício muito mais sólido do que aquele onde lhe sugavam o sangue. Fraternais votos de que o Universo conspire a favor.
quarta-feira, 17 de novembro de 2010
Prá ver - engano
Cometi um equívoco quando falei da exposição IMAGENS IMPRESSAS.
A mostra vai até o próximo dia 28 de novembro de terça a sexta, das 10h às 21h30 e aos sábados, domingos e feriados das 10h às 18h30 no SESC Santos que fica na Rua Conselheiro Ribas, 136 - Santos / SP. Ainda há tempo para ver.
A mostra vai até o próximo dia 28 de novembro de terça a sexta, das 10h às 21h30 e aos sábados, domingos e feriados das 10h às 18h30 no SESC Santos que fica na Rua Conselheiro Ribas, 136 - Santos / SP. Ainda há tempo para ver.
terça-feira, 16 de novembro de 2010
Sobre saudade e solidão
A amiga Márcia, mestra em artes, me corrige quando digo que estou solitário dizendo que o mais adequado seria dizer saudoso.
Analisando os escritos e anexos que me enviou a respeito da postagem aqui sobre a pizza solitária, vou carinhosamente discordar dela.
Saudade é diferente de solidão, apesar de serem ambas substantivos femininos, começarem com a mesma letra e terem o mesmo número delas. Nos dicionários a primeira é a lembrança nostálgica e, ao mesmo tempo, suave, de pessoa ou coisa distante ou extinta e a segunda o estado de quem se acha ou vive só. Fantástico o dicionarista, fantástica a nossa língua. Nostálgica e suave a saudade. De quem vive ou se acha só, a solidão. Eu acrescentaria que a solidão pode ser também nostálgica, mas quase nunca é suave.
Só se sente saudade de pessoas ou coisas, ações inclusive, que se acham distantes ou extintas e é perfeitamente possível viver-se só mesmo rodeado de coisas e pessoas.
Aqui, à beira das estradas é comum encontrarem-se pessoas caminhando pelos acostamentos em direção do nada, do mais pra frente. São os andantes ou andarilhos que carregam os pertences às costas, como os caracóis ou tem o mundo como pertence, como os pássaros. Apesar dos milhares de veículos e pessoas que passam, estão inapelavelmente sós. Talvez carreguem dentro de si saudades de outros tempos e coisas e pessoas que buscam encontrar ali, no logo adiante, no depois da próxima curva. É provável que a busca nunca termine. Vivem das frutas dos acostamentos e das esmolas, dos banhos das chuvas ou das bicas e caminham. A maioria fala sozinha, que talvez seja a melhor forma de ser escutado
Outros, aparentemente mais felizes, andam com um cachorro. São facilmente distinguíveis. O cachorro é, quase sempre, o mais bem cuidado e alimentado da dupla. Estranhamente, nem o homem e nem o cachorro se aproximam dos outros pelo caminho. Parece que se bastam, homem e cão, a si mesmos. Podem sentir saudades de coisas, pessoas ou situações, mas definitivamente não parecem solitários.
Em mim, que não tenho a paciência dos caracóis, a liberdade dos pássaros e não me afeiçôo tanto assim aos cães, convivem saudade e solidão, algumas vezes isoladas, algumas vezes como irmãs siamesas, quase sempre de modo doloroso. Na postagem, recordar-se das marcas na fôrma, tem a justa medida da saudade, dos tempos de família reunida. Comer o alimento sozinho, quase todos os dias, tem a aparência, o cheiro e o sabor de estar e se sentir só. A exata e correta mensuração da solidão.
Analisando os escritos e anexos que me enviou a respeito da postagem aqui sobre a pizza solitária, vou carinhosamente discordar dela.
Saudade é diferente de solidão, apesar de serem ambas substantivos femininos, começarem com a mesma letra e terem o mesmo número delas. Nos dicionários a primeira é a lembrança nostálgica e, ao mesmo tempo, suave, de pessoa ou coisa distante ou extinta e a segunda o estado de quem se acha ou vive só. Fantástico o dicionarista, fantástica a nossa língua. Nostálgica e suave a saudade. De quem vive ou se acha só, a solidão. Eu acrescentaria que a solidão pode ser também nostálgica, mas quase nunca é suave.
Só se sente saudade de pessoas ou coisas, ações inclusive, que se acham distantes ou extintas e é perfeitamente possível viver-se só mesmo rodeado de coisas e pessoas.
Aqui, à beira das estradas é comum encontrarem-se pessoas caminhando pelos acostamentos em direção do nada, do mais pra frente. São os andantes ou andarilhos que carregam os pertences às costas, como os caracóis ou tem o mundo como pertence, como os pássaros. Apesar dos milhares de veículos e pessoas que passam, estão inapelavelmente sós. Talvez carreguem dentro de si saudades de outros tempos e coisas e pessoas que buscam encontrar ali, no logo adiante, no depois da próxima curva. É provável que a busca nunca termine. Vivem das frutas dos acostamentos e das esmolas, dos banhos das chuvas ou das bicas e caminham. A maioria fala sozinha, que talvez seja a melhor forma de ser escutado
Outros, aparentemente mais felizes, andam com um cachorro. São facilmente distinguíveis. O cachorro é, quase sempre, o mais bem cuidado e alimentado da dupla. Estranhamente, nem o homem e nem o cachorro se aproximam dos outros pelo caminho. Parece que se bastam, homem e cão, a si mesmos. Podem sentir saudades de coisas, pessoas ou situações, mas definitivamente não parecem solitários.
Em mim, que não tenho a paciência dos caracóis, a liberdade dos pássaros e não me afeiçôo tanto assim aos cães, convivem saudade e solidão, algumas vezes isoladas, algumas vezes como irmãs siamesas, quase sempre de modo doloroso. Na postagem, recordar-se das marcas na fôrma, tem a justa medida da saudade, dos tempos de família reunida. Comer o alimento sozinho, quase todos os dias, tem a aparência, o cheiro e o sabor de estar e se sentir só. A exata e correta mensuração da solidão.
Assinar:
Postagens (Atom)