A moça fechou-se para dentro! Estava ali, sentada, vestida
como para uma viagem à Europa e com os cabelos soltos pedindo afagos. Assim,
tal qual quem nada ou tudo quer, cerrou os olhos mansamente de modo a não fazer
ruídos ou movimentos que pudessem distrair os pensamentos e sonhos que por ali
brincavam. A quem passasse e tivesse o privilégio de contemplá-la, transmitia
absoluta serenidade. Como se visitasse, pela vez primeira, as recônditas
paisagens de si mesma, linda e embevecida, sorria.
segunda-feira, 19 de outubro de 2015
domingo, 18 de outubro de 2015
Bem-te-vi.
O pássaro pousou no telhado, na quina do beiral e olhou aqui
prá dentro da sala com o olho direito. Com o esquerdo olhou para a avenida ali
embaixo, por onde carros e motocicletas passavam estrugindo. Deu uma cagada
brancacenta e alçou vôo para o lado oposto sem ao menos me dizer “bem-te-vi”.
sexta-feira, 16 de outubro de 2015
O perfeito caimento de tuas vestes.
Quando meus problemas cardíacos restringiam-se aos afetivos e eu nem supunha da existência dos outros que viriam depois, embasbaquei-me com tua gloriosa marcha para o quarto em suntuosos trajes de nú. Meu olhar absorto e contemplativo impediu-me de fotografar e minha memória, abarrotada e velha, vai deixando a obra desbotar-se.
quinta-feira, 15 de outubro de 2015
Nacionalidade e biscoitos.
“Seu” Domingos morava no Tremembé e criava Fox Paulistinha. Um dia, no século passado, disse-me que eu era português. Respondi-lhe afirmando que meu pai era da “terrinha” e minha avó materna também. Que minha mãe e eu havíamos nascido no Brasil, portanto brasileiros. Solapou meus argumentos e a conversa perguntando-me:
“Os filhotes de uma gata paridos no interior de um forno seriam, por acaso, biscoitos?”
domingo, 11 de outubro de 2015
Explicação, mais do que plausível, para a salinidade dos oceanos.
Manhã. Sol encoberto. Praia quase deserta.
Casal caminhando na minha direção,
ali onde as ondas se tornam espumas rasas.
Ele gesticula com os braços nervosos e ela leva as mãos aos olhos.
Quando nos cruzamos sem que eu seja notado,
observo que lagrimas fogem do rosto dela e se jogam
na tentativa de misturarem-se àquela pequena porção
de água que retorna correndo à imensidão do Atlântico.
quinta-feira, 8 de outubro de 2015
quarta-feira, 7 de outubro de 2015
Hoje perdi um sol!
Hoje perdi um sol!
De nada serve o “amanhã ele voltará”.
Amanhã será outro, não o mesmo,
Como serei outro eu,
Como será outro mar, outras gaivotas, outras nuvens
e serão outros os reflexos na areia molhada.
Hoje, se quiser, devo valher-me de um sol antigo, já visto e já gravado.
Amanhã, se esta bola continuar a girar, o que espero ardorosamente,
Outro sol surgirá e, se puder, lá estarei eu, na fila do gargarejo, à espera
Para os digitais registros.
Ele não será o mesmo, assim como não será o mesmo
o tempo de fazer as coisas que ainda não fiz.
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