quarta-feira, 7 de outubro de 2015

Hoje perdi um sol!

Hoje perdi um sol! De nada serve o “amanhã ele voltará”. Amanhã será outro, não o mesmo, Como serei outro eu, Como será outro mar, outras gaivotas, outras nuvens e serão outros os reflexos na areia molhada. Hoje, se quiser, devo valher-me de um sol antigo, já visto e já gravado. Amanhã, se esta bola continuar a girar, o que espero ardorosamente, Outro sol surgirá e, se puder, lá estarei eu, na fila do gargarejo, à espera Para os digitais registros. Ele não será o mesmo, assim como não será o mesmo o tempo de fazer as coisas que ainda não fiz.

segunda-feira, 21 de setembro de 2015

Cicatrizes.

Podem perguntar-me: Como foi? Doeu? Dói ainda? Eu responderia que quando as cicatrizes estão consolidadas não doem mais fisicamente. Há exceções. Algumas, como as decorrentes de fraturas, por vezes doem quando o tempo muda. Quando as cicatrizes não sangram mais, os ferimentos e dores físicas desaparecem ou transmudam-se em mentais ou espirituais. Nesse caso o líquido espesso de cor vermelha, que não corre mais das feridas, cede lugar ao outro, humor incolor e levemente salino, que em situações especiais ou inesperadas teima em escorrer pelos olhos.
Raízes.
Espelhamos, por dentro e por fora, a imagem daquelas e daqueles que nos antecederam, nos moldaram, nos marcaram e nos fazem quem somos. Se fossem mais visíveis as raízes que se fincaram em nossos corpos e mentes, teríamos a aparência de um gigantesco emaranhado.

Sementes

Algumas sementes de árvores não germinam ou, se o fazem, não se desenvolvem ao pé daquelas que lhes deram origem. Seleção dura e determinante para que procurem um local mais afastado das suas raízes a fim de que recebam água e nutrientes e da sua sombra para que recebam os indispensáveis raios do sol. Em alguns casos os frutos e as sementes caem sob a frondosa copa da mãe. Gerações de jovens mudas nascem e passam algum tempo esperando, mirradas, que os dias da mais velha cheguem ao fim e umas poucas mais saudáveis herdem-lhe o alimento, a água e, mais ansiosamente, a luz. Noutros casos animais comem alguns dos frutos e vão despejar os resíduos, incluindo as sementes que resistirem à digestão, em outros locais. Espécies há, entretanto, que se anteciparam para evitar a disputa e a concorrência. Dotaram cada semente de formato, algodão, paina ou asas que lhes permitam voar. O acordo foi feito com o vento. No momento certo de deixar a proteção materna, aquele aparece e carrega os descendentes para outros lugares. As sementes viajantes pousam sobre qualquer superfície até o instante em que se dê o definitivo encontro com solo nutritivo e úmido sinalizando que é hora de lançar ancora ou raízes para perpetuar a hereditariedade.

terça-feira, 2 de junho de 2015

Você nunca esqueceu nossos aniversários. Nós não esqueceríamos o seu. Talvez não caiba o feliz aniversário, o muitos anos de vida, exceto pela vida em nossas memórias. Não cabem o bolo e as sessenta velas que deveríamos acender hoje. Cabem, ou melhor não cabem, as saudades que acumuladas dentro de nós liquefazem-se e transbordam pelos nossos olhos. Paz e muita luz.

domingo, 9 de junho de 2013

Difíceis dias.

Difíceis dias estes. Há quatro anos, desde o acidente, o período entre o final de maio e o começo de junho tem sido de difícil transição. Em vinte de maio o acidente, em dois de junho o aniversário dela e em oito o aniversário de casamento. Eu e os moleques voltamos ao cemitério, em 20, e recolocamos, junto ao nome da Márcia, a rosa vermelha de biscuit, feita por ela, que havia sido retirada para correção da plaquinha da lápide. Dia dois a lamentação pelo que deveria ser o seu 58º aniversário e hoje o que seria o 39º do casamento. Estranho como são marcas indeléveis essas gravadas na memória. Estranho como ocorrem coincidências ou como associamos fatos corriqueiros às nossas lembranças, chamando-os de coincidências. Sem falar dos anteriores, refiro-me ao de ontem. Caminhava pela praia, já pensando no dia de hoje e nas poucas vezes que viemos até Peruibe (outra das inúmeras coisas das quais me arrependo) quando vi, escrito na areia o nome dela. Não cheguei a ver quem o escreveu e já não havia pessoa próxima a quem eu pudesse atribuir a autoria. Estava com a máquina fotográfica e passei pelo escrito. Parei logo depois e pensei em fotografar o nome. Como a maré subia achei que não daria tempo já que as ondas apagariam as letras. Retirei a máquina da bolsa e a liguei julgando que seria inútil já que a água se aproximava depressa. Por uma das tais coincidências a espuma da onda parou junto ao nome mas não o suficiente para afetá-lo. Fiz duas fotos e me afastei sem olhar para trás. Achei melhor não ver o nome sumindo. Preferi lembrar dele ainda gravado, como de todas as coisas que os quase quarenta anos de convivência marcaram em mim.