Não sei por que cargas d’água sempre dormi do lado esquerdo.
Não sei se há algum estudo sobre isso. O lado que os casais escolhem pra dormir.
Por ser canhoto e usar esta mão para desligar o despertador? Mesmo depois que você passou a controlar o relógio, mantivemos os lados originais, independentemente de camas, casas ou lugares. O braço esquerdo livre para os afagos ou, antigamente, mais próximo do cinzeiro? As poucas vezes que mudamos, não nos sentíamos confortáveis.
Muitas vezes uma cama de solteiro bastava pra nós dois. Até mesmo um sofá na sala, como aquele da Vila Mariana, o primeiro, aquele de madeira aglomerada, maravalhas ou raspas de madeira coladas, disfarçado e vendido como móvel laqueado, que não resistiu à primeira estripulia e que durante alguns meses apresentou uma lata de óleo como suporte ou escora da travessa frontal remendada. Nossas camas de casal muito mais resistentes. A de São João Novo, que construí com pinho do Paraná e cujo estrado dura até hoje.
Me dei conta disso, mais detidamente, agora, depois do acidente. Com as costelas quebradas do lado direito, só me é possível deitar de costas ou sobre o lado esquerdo. Eu que me virava diversas vezes à noite e desmanchava totalmente a sua arrumação dos lençóis.
Todos estes dias, já com o frio de junho, não consegui virar-me para o seu lado para ter certeza de que você não estava lá. Meu braço te puxando pra junto de mim ou, a contrapartida, teu peito aquecendo minhas costas. Perfeitos e aquecedores encaixes.
Algumas vezes ainda tento virar-me e estico o olhar para o lado direito.
A constatação é dolorosa e solitária.
Aquele lado da cama parece uma extensa planície polar, gelada.
Inapelável e implacavelmente desabitada.
Todas as noites me sinto como um daqueles desbravadores solitários dos pólos. Com a incerteza de chegar vivo ao amanhecer ou morrer enregelado.
O explorador, ao final, comemora a glória do pioneirismo. Aqui, ao cabo de cada jornada noturna, nada há a comemorar.
Há apenas a expectativa de uma nova noite.
Outra gélida e dura travessia e uma gigantesca saudade.
domingo, 14 de junho de 2009
quinta-feira, 11 de junho de 2009
Minha metade partida
Éramos duas metades de um.
A metade que se foi era a que sabia de mim, das minhas coisas.
Era a que sabia dos meus compromissos, das minhas vestes,
cortava meus cabelos e minha barba.
Cuidava do meu corpo e da minha alma, lustrava o meu ego.
A metade que partiu é a que exclamava “nossa!”, “hummm”, “ficou bom!”.
Que fazia cara de espanto e dizia ter gostado de um escrito, de um quadro, de uma gravura, de uma comida, fazendo-me crer que era verdade.
A metade que mais gostava de mim me foi tirada.
A metade que ficou dependia da que se foi!
Sobrou esta, que caminha desnorteada, deambula.
Quem vê esta metade, não a vê metade.
Imagina que é um corpo inteiro.
Meio acabado, mas íntegro.
Sequer supõe uma metade faltante, vazia.
Diferentemente dos amputados, minhas roupas,
mangas de camisas e pernas de calças, não pendem
ocas balançando ao sabor do vento.
Aparecem aos olhos alheios como se todos os membros e partes do corpo continuassem fazendo parte do conjunto.
A metade que se foi era a que sabia de mim, das minhas coisas.
Era a que sabia dos meus compromissos, das minhas vestes,
cortava meus cabelos e minha barba.
Cuidava do meu corpo e da minha alma, lustrava o meu ego.
A metade que partiu é a que exclamava “nossa!”, “hummm”, “ficou bom!”.
Que fazia cara de espanto e dizia ter gostado de um escrito, de um quadro, de uma gravura, de uma comida, fazendo-me crer que era verdade.
A metade que mais gostava de mim me foi tirada.
A metade que ficou dependia da que se foi!
Sobrou esta, que caminha desnorteada, deambula.
Quem vê esta metade, não a vê metade.
Imagina que é um corpo inteiro.
Meio acabado, mas íntegro.
Sequer supõe uma metade faltante, vazia.
Diferentemente dos amputados, minhas roupas,
mangas de camisas e pernas de calças, não pendem
ocas balançando ao sabor do vento.
Aparecem aos olhos alheios como se todos os membros e partes do corpo continuassem fazendo parte do conjunto.
segunda-feira, 8 de junho de 2009
Bodas de Fel
O casamento ocorreu há exatos trinta e cinco anos, dia oito de junho de 1974. No dia dois ela tinha feito dezenove anos e eu, em dezembro do ano anterior, vinte e quatro. Meus pais já estavam morando em São Vicente e a festa foi realizada na casa dela, em Tremembé, perto da Cantareira. Algumas das fotos mostram pessoas que nunca mais vi. Outras que continuaram sendo colegas de serviço por algum tempo e outras, muitas, que também já se foram.
Lembro-me da viagem para Santos, da lua de mel no apartamento emprestado da avenida da praia, no Gonzaga. Depois, do apartamento que alugamos na Vila Mariana. Da chegada do Diogo e da mudança para São Roque, onde nasceram o Bruno e o Fábio.
A vinda para Musácea com o Fábio de colo ainda. A permanência numa barraca de camping durante a construção da casa e os apuros que passamos, principalmente ela, durante a fase mais difícil aqui.
Tempos de absurdas dificuldades que encaramos como parte de um sonho, talvez mais meu do que dela, de criarmos os filhos longe da violência da cidade grande. Coisas daquela época de alimentação macrobiótica, cultivo da terra sem pesticidas e sem adubos químicos, ar respirável, céu e estrelas visíveis todas as noites. O apoio, a retaguarda e as dificuldades que somente a amiga e companheira, muito mais que esposa, suportaria. Nenhuma queixa e nenhum desânimo visíveis. Apenas doação. A época das plantações e colheita. A época da minha perna quebrada, a ponta da muleta afundando na terra sempre que eu procurava ajudar. A sensação de absoluta inutilidade. A permanência sozinha, com as crianças, quando fui para o hospital.
A ligeira melhoria quando passei a dar aulas. O concurso para Escrivão. Vida um pouco melhor, mas ainda assim muito distante do padrão que tínhamos em São Paulo ou São Roque. As campanhas políticas. Minhas queixas do trabalho. Seu ouvido, consolo, apoio e suporte. Reclamação nenhuma.
Os filhos se mudando para estudar ou casar. Um sítio e uma casa ficando grandes demais, apenas pra dois. Minha aposentadoria e os planos para aposentadoria dela. A chegada dos netos e a vontade dela de ir para mais perto deles. O cansaço do serviço. As viagens planejadas. Os planos, as coisas para a casa, as plantas e flores que ela cultivava.
O acidente, o tsunami, a catástrofe. A irreparável perda. A súbita retirada dos meus apoios e suportes, a perda do equilíbrio que alguns médicos chamaram de labirintite causada pelo acidente. Absurdo erro médico. Qualquer ser humano teria tonturas e cairia se lhe tirassem a parte direita do corpo que o houvesse mantido em pé por trinta e cinco anos.
Trinta e cinco anos.
Bodas de dor, de falta, de amargor, bodas de solidão. Bodas de dolorida ausência. Bodas de lágrimas. Bodas de como eu gostaria que você estivesse aqui.
Lembro-me da viagem para Santos, da lua de mel no apartamento emprestado da avenida da praia, no Gonzaga. Depois, do apartamento que alugamos na Vila Mariana. Da chegada do Diogo e da mudança para São Roque, onde nasceram o Bruno e o Fábio.
A vinda para Musácea com o Fábio de colo ainda. A permanência numa barraca de camping durante a construção da casa e os apuros que passamos, principalmente ela, durante a fase mais difícil aqui.
Tempos de absurdas dificuldades que encaramos como parte de um sonho, talvez mais meu do que dela, de criarmos os filhos longe da violência da cidade grande. Coisas daquela época de alimentação macrobiótica, cultivo da terra sem pesticidas e sem adubos químicos, ar respirável, céu e estrelas visíveis todas as noites. O apoio, a retaguarda e as dificuldades que somente a amiga e companheira, muito mais que esposa, suportaria. Nenhuma queixa e nenhum desânimo visíveis. Apenas doação. A época das plantações e colheita. A época da minha perna quebrada, a ponta da muleta afundando na terra sempre que eu procurava ajudar. A sensação de absoluta inutilidade. A permanência sozinha, com as crianças, quando fui para o hospital.
A ligeira melhoria quando passei a dar aulas. O concurso para Escrivão. Vida um pouco melhor, mas ainda assim muito distante do padrão que tínhamos em São Paulo ou São Roque. As campanhas políticas. Minhas queixas do trabalho. Seu ouvido, consolo, apoio e suporte. Reclamação nenhuma.
Os filhos se mudando para estudar ou casar. Um sítio e uma casa ficando grandes demais, apenas pra dois. Minha aposentadoria e os planos para aposentadoria dela. A chegada dos netos e a vontade dela de ir para mais perto deles. O cansaço do serviço. As viagens planejadas. Os planos, as coisas para a casa, as plantas e flores que ela cultivava.
O acidente, o tsunami, a catástrofe. A irreparável perda. A súbita retirada dos meus apoios e suportes, a perda do equilíbrio que alguns médicos chamaram de labirintite causada pelo acidente. Absurdo erro médico. Qualquer ser humano teria tonturas e cairia se lhe tirassem a parte direita do corpo que o houvesse mantido em pé por trinta e cinco anos.
Trinta e cinco anos.
Bodas de dor, de falta, de amargor, bodas de solidão. Bodas de dolorida ausência. Bodas de lágrimas. Bodas de como eu gostaria que você estivesse aqui.
quinta-feira, 4 de junho de 2009
Caem fichinhas todos os dias
Não são as grandes coisas que mais fazem falta. São as pequeninas que mais dão o sentido da perda. São inúmeras as fichinhas que caem. Não uma única.
É o deitar no sofá da sala, para ver televisão, e adormecer. É o levantar depois e dizer que ia deitar-se ao que invariavelmente eu respondia que ela já estava deitada. É o sorriso em seguida e o “vou pra cama” sempre acompanhado do beijo e do “vem logo”.
É o “vem senão a comida esfria”.
É o “invadir” o banheiro pra tomar banho junto.
É o dormir como conchas para encarar o frio como este destas noites solitárias de junho.
É o aguardar a chegada da escola, coisa que os cachorros ainda continuam fazendo olhando na direção da entrada do sítio, no horário do ônibus (algumas vezes olho também).
É o cochilar nas viagens de carro e o passar a mão carinhosamente sobre minha perna direita, quando algum solavanco a despertava.
É o corar e o rir de qualquer coisa depois de meio cálice de vinho.
Não é o caráter, a bondade e a personalidade, com as quais tínhamos aprendido a conviver.
Eram as ditas bobagens, as coisinhas miúdas, corriqueiras, intimas, do dia a dia.
Estas é que dão o tom da perda e transformaram o acidente em catástrofe.
Não é a dor das costelas quebradas e nem a falta de equilíbrio ou labirintite (provisórias, segundo dizem). Não são os pequenos ferimentos na cabeça ou no braço, já cicatrizados. O que dói são essas pequeninas dores como que causadas por finas e pequenas agulhas. Milhares delas cravadas pelo corpo.
É o deitar no sofá da sala, para ver televisão, e adormecer. É o levantar depois e dizer que ia deitar-se ao que invariavelmente eu respondia que ela já estava deitada. É o sorriso em seguida e o “vou pra cama” sempre acompanhado do beijo e do “vem logo”.
É o “vem senão a comida esfria”.
É o “invadir” o banheiro pra tomar banho junto.
É o dormir como conchas para encarar o frio como este destas noites solitárias de junho.
É o aguardar a chegada da escola, coisa que os cachorros ainda continuam fazendo olhando na direção da entrada do sítio, no horário do ônibus (algumas vezes olho também).
É o cochilar nas viagens de carro e o passar a mão carinhosamente sobre minha perna direita, quando algum solavanco a despertava.
É o corar e o rir de qualquer coisa depois de meio cálice de vinho.
Não é o caráter, a bondade e a personalidade, com as quais tínhamos aprendido a conviver.
Eram as ditas bobagens, as coisinhas miúdas, corriqueiras, intimas, do dia a dia.
Estas é que dão o tom da perda e transformaram o acidente em catástrofe.
Não é a dor das costelas quebradas e nem a falta de equilíbrio ou labirintite (provisórias, segundo dizem). Não são os pequenos ferimentos na cabeça ou no braço, já cicatrizados. O que dói são essas pequeninas dores como que causadas por finas e pequenas agulhas. Milhares delas cravadas pelo corpo.
E a vida continua
Em seguida, as próprias flores, os insetos, as aves, o céu, o sol demorando a esquentar e a solidão do sítio, sem a presença física dela, é que me deram a noção da nossa insignificância.
Todo início de junho é assim. Basta esfriar o tempo e as flores voltam. E voltam as abelhas, as formigas, os pássaros, o néctar, o pólen e o perfume. As gotas de néctar que caem ao mais leve chacoalhar das flores, não são lágrimas adocicadas que se contrapõe às minhas, salgadas. São, como há milhares de anos, gotas de néctar.
Não importa quão grande seja a nossa dor e o nosso sofrimento. O universo continua em movimento. Nosso pequeno planeta continua girando em torno do sol. Nosso país, nosso estado e nossa cidade continuam como se nada tivesse acontecido. Nossas ruas, nossos amigos e nossos parentes, mais próximos ou mais distantes, após o primeiro direto de esquerda, se agarram nas cordas ou recebem o auxilio do árbitro e continuam lutando por um ou mais rounds, até que a própria luta, aquela que travam pessoalmente, se encerre.
O que marca, o que vale, pra quem partiu é o que fizemos. O pequeno gesto, o pequeno carinho, uma frase de agradecimento ou de apoio. Depois talvez valham as orações e as lembranças. Para os que ficam valem as recordações e as saudades.
Quase sempre eu apanhava a primeira flor de astrapéia rosa que aparecia e a entregava a ela. Ela agradecia, me beijava e a colocava num copo com água.
Este ano fiz a mesma coisa. Coloquei a flor num copo com água e ela já está secando.
Não houve agradecimento. Não houve beijo. Não houve a menor graça.
Nada do que eu faça consegue mover o universo para trás, minutos antes do acidente, no dia 20. Absolutamente nada. Absolutamente impotente e insignificante.
sexta-feira, 29 de maio de 2009
Da saudade e da inutilidade dos "ses"
Tento lembrar-me dos momentos do acidente. Não consigo.Com muito custo, lembrei-me da saída de casa. Da passagem pelo colégio para apanhá-la. Do meu teste ergométrico. Do retorno pela estrada. Das paradas para fotografar nuvens. Da entrada na cidade para pagar o débito do cartão. Da compra de comida para os cachorros. Da volta à rodovia e do acesso à Padre Manoel da Nóbrega.
Daí em diante, nada. Dos cerca de três quilômetros até o local da catástrofe, nada.
Depois, dor e o chacoalhar da ambulância numa estrada de piso irregular ou esburacado. A chegada ao hospital e a dor nas costelas, no braço e no ombro direitos. As minhas insistentes perguntas sobre ela e as respostas evasivas: “Os feridos são divididos entre os hospitais”.
O arrastar do tempo. A dúvida se estava realmente comigo. A vontade de pedir a alguém que ligasse para casa para avisá-la do acidente. Em seguida a certeza de que, como sempre, tinha me acompanhado ao médico. A quase certeza de que se meu lado direito tinha sido mais ferido e se ela estava, como sempre, ao meu lado, estaria ainda mais ferida. As inúmeras orações. O soro e os medicamentos. O silêncio em resposta às minhas perguntas. O escorrer lento da noite e da madrugada. O amanhecer e o retorno dos filhos e de minha irmã. Os lábios e os olhos da dor e a notícia de que havia sido atendida ainda sobre a pista e não resistira. O choro conjunto da perda.
Depois o inconformismo e a revolta.
Ela ainda estaria viva e ao meu lado se eu, dependente de sua companhia, não a tivesse levado comigo ou se não tivéssemos parado para quitar dívidas ou se tivéssemos parado pra tomar um sorvete, se eu tivesse andado mais rápido ou mais devagar.
Porque, se mais velho, os danos maiores ao veículo não ocorreram do meu lado? Porque não eu, se hipertenso e com problemas cardíacos? Porque não eu, se ela saberia muito melhor o que fazer depois? Se saberia onde estão guardadas todas as coisas e eu não sei. Se cuidaria melhor dos filhos, das noras, dos netos, das plantas, das roupas e da casa, do que eu. Se lembrava mais dos aniversários e das contas do que eu. Se era mais amável, mais tolerante e paciente que eu. Porque não eu?
Porque nossos pais e nossos irmãos, já falecidos, aceitaram sem nenhuma contestação, as súplicas e orações que lhes fiz, durante toda a noite e madrugada, para que intercedessem por mim a fim de que ela me fosse devolvida sã e salva, se já a tinham ao seu lado e eu ainda não sabia?
Depois, parentes e amigos falaram dos desígnios, do destino e do cumprimento de tarefas já realizadas. E eu que entendo pouco das coisas do mundo e dos homens e menos ainda das coisas dos céus e de Deus, só fico com a imensa saudade e com a certeza da absoluta inutilidade dos “ses” que tomaram de assalto a minha cabeça, ainda tonta, todos esses dias.
sexta-feira, 15 de maio de 2009
Bananal da Serra
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